Eu sou a Christine Rolke. Dentista, nutricionista, mestre em Imunologia, professora de Medicina. Mas a formação que mais mudou minha vida não veio de faculdade nenhuma. Veio de uma madrugada de agosto de 2013, quando minha filha do meio, a Livia, bebeu de uma vez só uma mamadeira inteira de água e eu entendi que alguma coisa estava muito errada.
Ela tinha 13 meses. Não falava ainda. E saiu do hospital com um diagnóstico que eu, mesmo com mestrado em Imunologia, não sabia cuidar: diabetes mellitus tipo 1.
Quem já passou pelo diagnóstico sabe. Você sai do hospital com uma caneta de insulina na mão, um glicosímetro e uma folha de orientações. E a criança em casa continua sendo criança: acorda de madrugada, recusa comida, tem virose, cresce.
Eu lembro da educadora em diabetes que foi na minha casa ensinar a aplicar insulina, poucos dias depois do diagnóstico. Eu não conseguia entender nada do que ela explicava. Eu, que nunca tive dificuldade pra aprender. Hoje eu sei que não era a explicação. Era o luto, que ainda não tinha deixado espaço pra informação entrar.
Passei os anos seguintes estudando dia e noite. Planilhas de glicemia, cadernos anotando o efeito de cada alimento, cada dose, cada horário. Fiz terapia pra lidar com a preocupação excessiva. E fui atrás de formação de verdade: me qualifiquei como Educadora em Diabetes pela ADJ/SBD e voltei pra faculdade pra cursar Nutrição, porque contagem de carboidrato era o que mais definia o dia a dia da Livia e eu queria entender aquilo por dentro.
Hoje a Livia tem 14 anos, usa bomba de insulina Medtronic com o sensor Guardian 4 e tem uma vida normal. Não é uma criança doente. É uma criança saudável que tem diabetes tipo 1.
Em 2018, dei uma aula sobre bomba de insulina pra minha turma de Medicina na Universidade Vila Velha. Eu dou aula na universidade desde 2002, e no curso de Medicina desde 2010. Contei a história da Livia. Os alunos queriam saber mais, e foram eles que me pediram pra criar um perfil no Instagram sobre o tema.
Foi assim que nasceu o @maepancreas. Hoje são mais de 47 mil pessoas, a maioria mães de crianças com DM1, que chegam com a mesma pergunta que eu tinha no começo: “e agora, o que eu faço?”
Os pedidos de orientação cresceram tanto que virou curso. O Curso de Educação em Diabetes Tipo 1 já formou mais de 2.000 alunos em 28 turmas, com aulas ao vivo, grupo de apoio e uma comunidade de mães que se ajudam entre si. Em 2026 eu abri também a Trilha, um curso gratuito pra quem acabou de receber o diagnóstico e precisa do básico pra sobreviver às primeiras semanas.
Entre 2018 e 2019 coordenei o projeto de extensão Educação em Diabetes UVV-HEIMABA: meus alunos de Medicina e as endocrinopediatras do Hospital Estadual Infantil e Maternidade levaram educação em diabetes pras famílias atendidas pelo SUS. Foi ali que eu vi de perto o tamanho da diferença que a informação faz quando chega no começo.
Eu sou professora de Imunologia. Passo o dia cobrando dos meus alunos que não repitam o que ouviram por aí sem checar a fonte. Não faria diferente com as mães.
Tudo que eu publico aqui segue as diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes, da ISPAD (a sociedade internacional de diabetes pediátrico) e da ADA. Quando eu falo de experiência própria, eu digo que é experiência própria. Quando é evidência, eu cito de onde veio.
E uma coisa que eu repito em toda aula: o que está aqui é educação em diabetes. Serve pra você entender o que acontece no corpo do seu filho e conversar de igual pra igual com a equipe dele. Dose de insulina, meta glicêmica e ajuste de tratamento são decisões individuais, e quem decide é o médico que acompanha a criança. Meu papel é fazer você chegar nessa consulta sabendo o que perguntar.
Um abraço,
Christine