Você já viu sua filha ficar pálida, molinha, de repente irritada sem motivo, e o primeiro pensamento foi “mede a glicemia”? Se sim, você já conhece a hipoglicemia na prática. Se ainda não, esse texto é pra você aprender a reconhecer antes de precisar.
Eu sou a Christine, nutricionista, educadora em diabetes e mãe da Livia, que tem diabetes tipo 1 desde os 13 meses. Hipoglicemia foi a primeira coisa que eu tive que aprender a identificar numa criança que ainda não falava. E é a complicação aguda mais frequente no diabetes tipo 1, então vale entender direito o que acontece no corpo, quais são os sinais e o que fazer em cada situação.
O que é hipoglicemia
Hipoglicemia é glicose no sangue abaixo de 70 mg/dL. Esse é o corte usado pela Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) de 2026, pela ISPAD (sociedade internacional de diabetes pediátrico) e pela ADA.
Por que 70? Porque é mais ou menos nesse valor que o corpo começa a reagir. Quando a glicose cai, o organismo libera hormônios contrarreguladores, principalmente adrenalina e glucagon, pra tentar subir a glicemia de volta. Esses hormônios são responsáveis pela primeira leva de sintomas. Se a glicose continua caindo, o cérebro começa a ficar sem combustível, e aí aparece a segunda leva.
Na criança com diabetes tipo 1, a hipoglicemia acontece porque a insulina que a gente aplica não sabe parar. O pâncreas de quem não tem diabetes desliga a produção de insulina quando a glicose cai. A insulina injetada continua agindo até acabar o efeito dela, independente do que a glicemia está fazendo. Por isso ela é tão comum: qualquer desencontro entre dose, alimentação e atividade pode terminar em hipo.
Sintomas de hipoglicemia: os dois grupos
Aqui está a parte que mais ajuda no dia a dia. Os sintomas se dividem em dois grupos, e saber qual grupo está aparecendo diz o quanto a situação é urgente.
1. Sintomas de alerta (adrenérgicos)
São os primeiros a aparecer, causados pela descarga de adrenalina. O corpo está avisando.
- Tremor nas mãos ou no corpo
- Suor frio, às vezes com a roupa molhada
- Palidez
- Coração acelerado, palpitação
- Fome repentina e intensa
- Ansiedade, sensação de nervoso
- Formigamento nos lábios ou na língua
2. Sintomas do cérebro sem glicose (neuroglicopênicos)
Aparecem quando a glicose já está mais baixa e o cérebro começa a sofrer. Esses pedem ação imediata.
- Dificuldade pra pensar, raciocínio lento, confusão
- Dor de cabeça
- Visão turva ou dupla
- Fala arrastada, parecendo embriagado
- Sonolência, moleza, dificuldade pra acordar
- Mudança de comportamento: irritação, choro, agressividade, birra do nada
- Falta de coordenação, tropeços
- Convulsão e perda de consciência, nos casos graves
Uma coisa importante: a ordem nem sempre é essa. Tem criança que pula os sinais de alerta e vai direto pra sonolência ou confusão. E tem criança que apresenta hipoglicemia com um sintoma só, sempre o mesmo. Com o tempo, você aprende qual é o sinal da sua filha.
Como a hipoglicemia aparece na criança pequena
Bebê e criança pequena não dizem “mãe, estou tremendo”. Eles mostram. Na Livia, com um ano e pouco, o sinal era ficar quieta demais. Uma criança que estava brincando e de repente para, encosta, fica olhando pro nada.
Sinais que as mães do nosso grupo relatam com frequência em crianças pequenas:
- Palidez, principalmente ao redor da boca
- Choro sem motivo aparente, difícil de consolar
- Birra ou irritação fora do padrão da criança
- Moleza, querer deitar, pedir colo de repente
- Sono fora de hora ou dificuldade pra acordar
- Suor na cabeça e na nuca, mesmo sem calor
- Olhar perdido, parado
- Pedir comida com urgência, ou o contrário, recusar comer
A regra prática que eu ensino: comportamento estranho, mede a glicemia. Não tenta adivinhar. Medir é rápido, errar por excesso de cuidado não custa nada. Deixar passar custa.
Hipoglicemia durante a noite
A hipoglicemia noturna assusta porque a criança está dormindo e não vai avisar. Sinais que podem aparecer:
- Suor intenso, lençol e cabelo molhados
- Pesadelo, agitação, gemido durante o sono
- Acordar com dor de cabeça ou muito cansada
- Glicemia alta de manhã sem explicação (pode ser rebote de uma hipo que passou despercebida)
Quem usa sensor de glicose (CGM) com alarme tem uma vantagem enorme aqui. Se a sua filha ainda não usa, vale conversar com a equipe sobre a possibilidade. Se usa, os alarmes de hipoglicemia precisam estar ligados à noite, com o limite ajustado junto com o médico. É comum a gente querer desligar por causa do cansaço. Eu entendo, já passei por isso. Mas o alarme noturno é o que faz a diferença nas hipoglicemias mais perigosas.
Níveis de gravidade
A Diretriz da SBD 2026, a ISPAD e a ADA usam a mesma classificação em três níveis:
| Nível | Glicemia | O que significa |
|---|---|---|
| Nível 1 | 54 a 69 mg/dL | Hipoglicemia de alerta. Tratar já, antes que caia mais. |
| Nível 2 | Abaixo de 54 mg/dL | Hipoglicemia clinicamente importante. O cérebro já está em risco. |
| Nível 3 | Qualquer valor, com alteração mental ou física que exija ajuda de outra pessoa | Hipoglicemia grave. Precisa de glucagon ou atendimento de emergência. |
O nível 3 não depende do número, depende do estado da criança. Uma criança que não consegue engolir, que está confusa demais pra colaborar, ou inconsciente, está em hipoglicemia grave mesmo que o glicosímetro mostre 50.
O que fazer: passo a passo pra tratar
Criança consciente e conseguindo engolir (níveis 1 e 2)
1. Dê carboidrato de absorção rápida. Só glicose ou açúcar, sem gordura, sem proteína, sem fibra, porque isso atrasa a absorção. Chocolate, biscoito e leite não servem pra tratar hipo, por mais que a criança peça.
Quanto dar: a orientação clássica é 15 g de carboidrato. Pra criança, a ISPAD orienta calcular pelo peso, cerca de 0,3 g de glicose por quilo. Uma criança de 20 kg precisa de aproximadamente 6 g; uma de 50 kg, 15 g. Isso evita tratar demais e a glicemia disparar depois. O valor certo pra sua filha é combinado com a equipe, e você vai ajustando com a experiência.
Exemplos práticos pra 15 g:
- 1 colher de sopa de açúcar dissolvida em água
- 150 mL de suco de laranja ou refrigerante comum (não zero)
- 3 a 4 balas de glicose, ou 1 sachê de gel de glicose
- 1 colher de sopa de mel (só acima de 1 ano de idade)
Pra criança pequena, mel ou gel de glicose passado na gengiva, por dentro da bochecha, é uma opção quando ela não quer beber.
2. Espere 15 minutos e meça de novo. Esse tempo é o que o açúcar leva pra ser absorvido. Não adianta medir aos 5 minutos e dar mais açúcar porque “não subiu”.
3. Se ainda estiver abaixo de 70, repita. Mesma quantidade, mais 15 minutos.
4. Quando normalizar, avalie se precisa de um lanche. Se a próxima refeição está longe, se a criança acabou de fazer atividade física, ou se ainda tem insulina ativa (bolus recente), um lanche com carboidrato complexo ajuda a sustentar. Se a refeição está perto, pode só adiantar.
No acompanhamento nutricional, uma das primeiras coisas que eu monto é a tabela de hipoglicemia do paciente: o que ele aceita comer, quanto de cada alimento dá a dose certa pro peso dele, e o que fica na mochila, no carro e na escola ou no trabalho. Isso tira a conta da cabeça na hora do sufoco. Eu atendo crianças e adultos, com diabetes tipo 1 ou tipo 2. Se você quer montar a sua tabela, fala comigo.
Quem usa sensor: nos primeiros 15 a 20 minutos depois de tratar, o sensor pode continuar mostrando queda porque ele lê o líquido intersticial, que atrasa em relação ao sangue. Se a criança já está melhor e você tratou corretamente, espere. Se tiver dúvida, confirme na ponta do dedo.
Criança inconsciente, convulsionando ou sem conseguir engolir (nível 3)
Nunca coloque líquido ou comida na boca de quem está inconsciente. Risco de engasgo e aspiração.
O tratamento é glucagon, que é um hormônio que faz o fígado liberar a glicose que ele tem guardada. Toda família de criança com DM1 deveria ter glucagon em casa e saber usar. No Brasil a única apresentação disponível é o kit injetável (pó e diluente pra misturar na hora), aplicado no músculo ou sob a pele. A versão em pó nasal, que dispensa preparo e agulha, existe em outros países mas ainda não chegou aqui. Em criança a dose costuma ser metade do frasco, mas isso é prescrição médica: a dose da sua filha tem que estar definida pela equipe antes, escrita e à mão, não decidida na hora da emergência.
Depois do glucagon: deitar a criança de lado, ligar pro SAMU (192) se ela não acordar em 10 a 15 minutos, e assim que ela conseguir engolir, dar carboidrato, porque o efeito do glucagon é curto e a glicemia pode cair de novo. Náusea e vômito depois do glucagon são comuns.
Toda hipoglicemia grave precisa ser comunicada à equipe que acompanha a criança, mesmo que tenha resolvido em casa. Ela quase sempre indica que alguma dose precisa de ajuste. Eu escrevi um texto só sobre isso: como tratar hipoglicemia severa no diabetes tipo 1.
Por que a hipoglicemia acontece
Entender a causa é o que evita a próxima. As mais comuns:
- Insulina a mais: erro de cálculo, contagem de carboidrato superestimada, dose duplicada por engano, troca de insulina rápida por lenta.
- Comida a menos: a criança recusou o prato depois da insulina, vomitou, ou a refeição atrasou. Em criança pequena isso é muito frequente, e é um dos motivos pra algumas famílias aplicarem parte da dose depois da refeição, sempre com orientação da equipe.
- Exercício: aumenta a captação de glicose pelo músculo e a sensibilidade à insulina por horas, às vezes até a madrugada seguinte. Aula de educação física, festa de aniversário, dia na piscina.
- Local de aplicação: aplicar insulina numa região que vai ser exercitada (coxa antes do futebol) acelera a absorção.
- Calor e banho quente: aumentam o fluxo de sangue na pele e a velocidade de absorção da insulina.
- Doença: gastroenterite com vômito e diarreia reduz a absorção de carboidrato.
- Lua de mel: nos primeiros meses depois do diagnóstico o pâncreas ainda produz um pouco de insulina, e a necessidade cai. As doses precisam ser revistas com frequência nessa fase.
- Álcool, na adolescência: bloqueia a liberação de glicose pelo fígado e aumenta o risco de hipo tardia, inclusive de madrugada.
Hipoglicemia sem sintomas
Existe uma situação em que a criança tem 50 mg/dL e não sente nada. Chama-se hipoglicemia assintomática ou “hypoglycemia unawareness”.
Acontece quando as hipoglicemias são muito frequentes. O cérebro se adapta a funcionar com pouca glicose e deixa de disparar a adrenalina que causa os sintomas de alerta. O resultado é que o primeiro sinal passa a ser confusão ou desmaio, sem aviso antes.
A boa notícia: isso é reversível. Algumas semanas evitando qualquer hipoglicemia, com ajuste de doses e metas um pouco mais altas temporariamente, e a sensibilidade aos sintomas volta. Se a sua filha está tendo hipoglicemias que ela não percebe, esse é um assunto pra levar à próxima consulta com prioridade.
Quantas hipoglicemias são “normais”?
Nenhuma hipoglicemia é desejável, mas na prática, quem usa insulina vai ter algumas. O que as diretrizes atuais colocam como meta, usando os dados do sensor:
- Menos de 4% do tempo abaixo de 70 mg/dL (menos de 1 hora por dia)
- Menos de 1% do tempo abaixo de 54 mg/dL (menos de 15 minutos por dia)
Se a sua filha está passando mais tempo que isso em hipoglicemia, o tratamento precisa de ajuste. Não é culpa sua, nem falha dela. É informação pra levar pra equipe.
Kit de hipoglicemia: o que ter sempre à mão
Na mochila da escola, no carro, na bolsa, na mesa de cabeceira:
- Balas de glicose ou sachês de gel (fáceis de dosar, não derretem)
- Açúcar em sachê ou suco em caixinha pequena
- Glicosímetro com fitas, mesmo quem usa sensor
- Glucagon, com a data de validade em dia
- Um cartão ou bilhete com o passo a passo, pra quem estiver cuidando da criança
Perguntas frequentes
Tremor, suor frio, palidez, fome repentina e coração acelerado. São causados pela adrenalina que o corpo libera quando a glicose cai abaixo de 70 mg/dL. Em crianças pequenas, irritação, choro e moleza costumam vir antes.
Se a pessoa está consciente e consegue engolir: dar 15 g de carboidrato de absorção rápida (ou 0,3 g/kg em crianças), esperar 15 minutos e medir de novo. Repetir se continuar abaixo de 70. Se está inconsciente ou não consegue engolir: glucagon e SAMU (192).
Pode, mas é rara. Jejum prolongado, algumas doenças e certos medicamentos podem causar. Em quem não usa insulina nem medicação pra diabetes, hipoglicemia repetida precisa de investigação médica.
Abaixo de 70 mg/dL, segundo a Diretriz da SBD 2026, a ISPAD e a ADA. Abaixo de 54 mg/dL é considerada clinicamente importante, com risco pro cérebro.
Não é a melhor escolha. A gordura do chocolate atrasa a absorção do açúcar, e a glicemia demora mais pra subir. Prefira glicose pura, açúcar, suco ou refrigerante comum.
Sim. Chama-se hipoglicemia assintomática e é mais comum em quem tem hipoglicemias frequentes. É reversível com algumas semanas sem hipoglicemia, com ajuste feito pela equipe.
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Fontes
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz da SBD, edição 2026. Capítulos “Metas de controle glicêmico” (https://diretriz.diabetes.org.br/metas-de-controle-glicemico/) e “Peculiaridades do tratamento da criança com DM1” (https://diretriz.diabetes.org.br/peculiaridades-do-tratamento-da-crianca-com-dm1/).
- Abraham MB, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Assessment and management of hypoglycemia in children and adolescents with diabetes. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1322-1340.
- American Diabetes Association. Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S132-S149. https://doi.org/10.2337/dc26-S006
- Battelino T, et al. Clinical targets for continuous glucose monitoring data interpretation: recommendations from the International Consensus on Time in Range. Diabetes Care. 2019;42(8):1593-1603.
Texto escrito por Christine Rolke, nutricionista (CRN 24102380), educadora em diabetes e mãe de criança com diabetes tipo 1. Revisado em 13/09/2026. Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação da equipe que acompanha a sua criança. Doses, metas e ajustes de insulina são sempre individuais.