Hipoglicemia em crianças com diabetes tipo 1: o guia da família pra prevenir, tratar e voltar a dormir

Em uma frase

Hipoglicemia é glicemia abaixo de 70 mg/dL. Na criança com diabetes tipo 1 ela acontece porque a insulina aplicada não sabe parar quando a glicose cai. Tratar é simples: carboidrato rápido (cerca de 0,3 g por quilo, até 15 g), esperar 15 minutos, medir de novo. Evitar é o trabalho de verdade: entender o que derruba a glicemia da sua criança à noite, no exercício, na escola, e ter um plano pronto pra cada uma dessas situações. É disso que este guia trata.

Se você é mãe de uma criança com diabetes tipo 1, você já sabe reconhecer uma hipoglicemia. O que tira o sono, literalmente, é o resto: saber se dá pra dormir depois de tratar às 3 da manhã, o que mandar pra escola, quanto de carboidrato dar antes do futebol, quando usar o glucagon e se a hipo de ontem quer dizer que alguma dose está errada. Eu sou a Christine, nutricionista, educadora em diabetes, professora de Medicina, e mãe da Livia, que tem diabetes tipo 1 desde os 13 meses. A minha primeira hipoglicemia como mãe foi de 23 mg/dL, dois dias depois da alta do hospital. Este texto é o que eu aprendi desde então, com a minha filha e com as centenas de famílias que eu acompanho.

Se o que você procura é a lista de sintomas e o passo a passo básico do tratamento, eu escrevi um texto só sobre isso: sintomas de hipoglicemia: como reconhecer e o que fazer. Aqui eu vou além: prevenção e manejo em cada situação da vida da criança.

O básico em dois minutos

Vamos alinhar o essencial, porque tudo o que vem depois usa isso.

Hipoglicemia é glicemia abaixo de 70 mg/dL. A Diretriz da SBD 2026, a ISPAD e a ADA classificam em três níveis: nível 1, de 54 a 69 mg/dL, é o alerta, trata já; nível 2, abaixo de 54, o cérebro já está em risco; nível 3 é qualquer valor em que a criança precisa de outra pessoa pra resolver, porque está confusa demais, não consegue engolir ou está inconsciente. O nível 3 não depende do número, depende do estado dela.

Tratamento na criança consciente: carboidrato de absorção rápida (glicose, açúcar, suco, refrigerante comum; não chocolate, não leite, não biscoito), esperar 15 minutos, medir de novo, repetir se continuar abaixo de 70. Quanto: a regra clássica é 15 g, mas em criança a ISPAD orienta calcular pelo peso, cerca de 0,3 g de glicose por quilo. Uma criança de 15 kg precisa de 4 a 5 g, que é uma bala de glicose ou uma colher de chá cheia de açúcar. Dar 15 g pra ela é tratar demais, e a glicemia vai pra 250 uma hora depois. Esse número é combinado com a equipe e ajustado com a experiência.

Criança inconsciente, convulsionando ou sem conseguir engolir: nada pela boca, glucagon, SAMU (192). Tem uma seção inteira sobre isso mais abaixo.

Os sintomas, os dois grupos deles (adrenalina primeiro, cérebro sem glicose depois) e como a hipo aparece em quem não fala estão no texto de sintomas de hipoglicemia. Daqui pra frente eu vou assumir que você sabe reconhecer.

Por que a criança faz hipoglicemia

Você quer parar de apagar incêndio e começar a prevenir? Então a primeira coisa é entender por que a hipo acontece, porque cada causa tem uma prevenção diferente.

O pâncreas de quem não tem diabetes ajusta a insulina segundo a segundo. Quando a glicose começa a cair, ele simplesmente para de produzir. A insulina que a gente aplica não faz isso. Ela entra e age até acabar o efeito dela, por três a quatro horas se for rápida, por um dia inteiro se for basal, independente do que a glicemia está fazendo. Hipoglicemia, no fundo, é sempre um desencontro entre a insulina que está agindo e a glicose que está disponível. Esse desencontro vem de quatro lugares:

  1. Insulina a mais do que a comida precisava. Contagem de carboidrato superestimada, razão insulina/carboidrato desatualizada (a criança cresceu, entrou em lua de mel, mudou de rotina), correção em cima de correção.
  2. Comida a menos do que a insulina esperava. A criança recusou o prato depois da dose, vomitou, a refeição atrasou, o lanche da escola não foi comido.
  3. Gasto a mais. Exercício, brincadeira agitada, dia na piscina, festa de aniversário com pula-pula. O músculo capta glicose sem precisar de insulina e fica mais sensível a ela por horas.
  4. Absorção mais rápida da insulina. Aplicar na coxa antes do futebol, banho quente, sol forte, massagem no local.

Tem um conceito que resolve metade das hipos de correção, e eu explico em toda consulta: a insulina ativa. A insulina rápida que você aplicou às 12h ainda está agindo às 14h. Se a glicemia está em 220 às 14h e você corrige com a dose cheia, você está somando duas insulinas, e a hipo vem às 15h30. Quem usa bomba vê a insulina ativa na tela. Quem usa caneta precisa fazer essa conta de cabeça: em geral, a orientação é não corrigir de novo antes de três horas da última dose, ou corrigir descontando o que ainda está agindo. Esse é um ajuste que a endocrinologista define, mas é a família que executa cem vezes por semana.

Prevenir no dia a dia

Não existe zero hipoglicemia em quem usa insulina, e uma glicemia de 65 tratada em cinco minutos não é fracasso. O que a gente quer evitar são as hipos que se repetem no mesmo horário, as que caem muito, as noturnas e as graves. Pra isso, cinco hábitos que funcionam:

1. Ligar e respeitar o alarme de baixa do sensor. A ISPAD 2024 orienta o alerta de baixa entre 70 e 80 mg/dL, e o alerta de queda rápida ligado. Sensor sem alarme é um número bonito na tela; alarme desligado “porque toca demais” é o sinal de que as doses precisam de ajuste, não de que o alarme atrapalha.

2. Olhar a seta, não só o número. No sensor, 90 com seta pra baixo é uma hipoglicemia em 15 minutos. 90 com seta estável é uma boa glicemia. A regra que eu ensino é simples:

O sensor mostraO que fazer
70 a 90 com seta pra baixo (↓ ou ↘)Não esperar chegar a 70: dar metade da dose de carboidrato de hipo (ou um lanche pequeno se for antes de comer) e reavaliar em 15 minutos
70 a 90 com seta estável (→)Observar; se tem insulina ativa ou exercício recente, um lanche pequeno
Abaixo de 70, qualquer setaTratar como hipoglicemia: carboidrato rápido, 15 minutos, medir
Abaixo de 70 e a criança bem, sem sintomaConfirmar na ponta do dedo antes de tratar, se dá tempo; se estiver em dúvida, trate

O sensor lê o líquido entre as células, que atrasa uns 10 a 15 minutos em relação ao sangue. Por isso, depois de tratar, ele pode continuar mostrando queda enquanto o sangue já subiu. E por isso, na compressão (a criança dormindo em cima do sensor), ele pode mostrar uma hipo que não existe. Glicosímetro na gaveta sempre.

3. Medir nos momentos-chave. Antes das refeições, antes de dormir, antes e depois do exercício, e sempre que o comportamento mudar. Quem não tem sensor mede mais: em dia de exercício, de dose nova ou de doença, uma medida entre 2h e 3h da manhã.

4. Não empilhar correção. O que eu expliquei acima: respeitar o tempo de ação da insulina rápida antes de corrigir de novo.

5. Kit de hipo em todo lugar onde a criança fica. Mochila, carro, casa da avó, escola, quarto, bolsa do pai. Balas de glicose ou sachê de gel (não derretem e dão a dose certa), açúcar em sachê, suco de caixinha pequena, glicosímetro, glucagon. Eu monto com cada família a tabela de hipo dela: o que a criança aceita, quanto de cada coisa dá a dose pro peso dela, o que fica em cada lugar. Tira a conta da cabeça na hora do sufoco.

Hipoglicemia noturna: o protocolo da família

A noite é a situação que mais assusta, e com razão: a criança está dormindo, não vai avisar, e o corpo dela responde pior à hipo durante o sono (a descarga de adrenalina que acorda um adulto muitas vezes não acorda uma criança). Segundo a ISPAD, quase metade das hipoglicemias graves em crianças acontece à noite. A boa notícia é que a noturna é a mais previsível de todas, porque ela vem quase sempre das mesmas causas: exercício de tarde, basal a mais, jantar com pouco carboidrato pra dose que foi dada, ou correção tarde da noite.

Vou te dar o protocolo que eu uso e ensino. Você adapta com a sua equipe.

Antes de dormir

  • Meça. A meta ao deitar, pela SBD 2026, é de 90 a 150 mg/dL. Não é 70. A folga é de propósito, porque a glicemia tende a cair na primeira metade da noite.
  • Pergunte três coisas: teve exercício hoje à tarde ou à noite? Tem insulina rápida ativa (bolus ou correção nas últimas três horas)? A glicemia está abaixo de 100 ou com seta pra baixo? Um “sim” já pede um lanche pequeno com carboidrato e um pouco de proteína (leite, iogurte, pão com queijo). Dois “sim” pedem lanche e uma medida na madrugada, mesmo com sensor.
  • Alarme ligado, celular fora do silencioso, volume alto. Se o sensor manda pro seu celular, ele fica na cabeceira, carregando. Se a criança dorme longe, um receptor no quarto dela e um no seu.
  • Kit na mesa de cabeceira: glicosímetro, suco ou gel de glicose, glucagon. Levantar pra procurar açúcar na cozinha às 3 da manhã, com sono, é como as coisas dão errado.

Se o alarme tocar (ou você medir e estiver baixa)

  1. Acorde a criança o suficiente pra ela engolir. Criança que engole recebe carboidrato rápido pela boca. Criança que não acorda, que engasga ou que está convulsionando não recebe nada pela boca: é glucagon.
  2. Dê a dose de carboidrato rápido dela (de novo: em criança pequena, metade de uma caixinha de suco pode ser o suficiente; a sua tabela diz quanto).
  3. Espere 15 minutos acordada. Eu sei. Mas é o tempo que o açúcar leva pra chegar no sangue, e é agora que a criança está mais vulnerável.
  4. Meça de novo. Abaixo de 70, repete. Acima de 70, dê um lanche pequeno com carboidrato lento e proteína se ainda faltam mais de três horas pro café, se teve exercício, ou se tem insulina ativa. Sem esses fatores, com sensor estável acima de 80, não precisa.
  5. Anote: horário, valor, o que deu, valor depois. Isso vira informação pra consulta.

Dá pra voltar a dormir?

Se a glicemia voltou pra cima de 80, estável, sem insulina ativa, com o alarme ligado: sim. Se você tratou uma hipo às 2h e a criança fez exercício de tarde, ou tem basal a mais, vale uma nova olhada em 1 hora (o alarme faz isso por você, se está ligado). Você não precisa passar a noite sentada olhando a tela. Uma noite sim, quando há motivo. Toda noite, não. Eu já fiquei meses acordando de hora em hora, e isso não me fez uma mãe melhor; me fez uma mãe esgotada tomando decisão errada de dia.

“Ela acordou com 250, então não teve hipo à noite”

Cuidado com essa conclusão. Uma glicemia alta de manhã pode ser hipo noturna tratada com açúcar demais (a causa mais comum), pode ser o fenômeno do alvorecer (hormônios do começo da manhã sobem a glicemia entre 4h e 8h) ou pode ser basal de menos. O “rebote” clássico, em que o corpo responde à hipo com uma alta enorme, existe, mas é bem menos frequente do que a gente pensava. O único jeito de saber é olhando o traçado do sensor ou medindo na madrugada. Três manhãs altas seguidas com noites sem dado é assunto pra consulta, não pra aumentar a dose da noite por conta.

Exercício, brincadeira e piscina

Criança com diabetes tipo 1 não só pode como deve fazer atividade física; a SBD e a ISPAD são claras nisso. O que muda é o planejamento, e aqui está a parte que eu mais vejo família errar: pra criança, brincadeira é exercício. Duas horas de parquinho, festa com pula-pula, tarde na piscina, correr atrás do cachorro. Nada disso está na agenda como “educação física”, e tudo isso derruba a glicemia.

O que acontece no corpo: o músculo em movimento capta glicose sem precisar de insulina, e depois do exercício ele fica mais sensível à insulina por até 24 horas, enquanto repõe o estoque de glicogênio. Por isso a hipo do exercício tem dois horários: durante ou logo depois, e de madrugada.

O que a ISPAD 2022 orienta, e que eu adapto pra cada família:

MomentoO que fazer
Antes de começarMedir. Abaixo de 90 mg/dL: carboidrato antes (10 a 15 g, menos em criança pequena) e esperar subir. Entre 90 e 125 com seta pra baixo: um lanche pequeno. Acima de 250 com cetona positiva: não exercitar até corrigir.
Se a atividade cai até 2 horas depois de uma refeição com bolusAvisar a equipe: é ela quem decide se e quanto o bolus dessa refeição muda em dia de exercício
Atividade longa (mais de 1 hora)Carboidrato durante (a quantidade pro peso da sua criança é combinada com a equipe); medir a cada 30 a 60 minutos
DepoisMedir ao terminar e antes de dormir; lanche com carboidrato lento e proteína; alarme de noite ligado; em dia de exercício intenso, medida de madrugada

Duas coisas práticas que não estão nas tabelas. Primeira: kit de hipo na beira do campo, na borda da piscina, na mão de quem está olhando a criança, não dentro da mochila no vestiário. Segunda: água. Na piscina o sensor perde sinal e o transmissor pode demorar pra reconectar; a leitura que aparece depois pode estar atrasada. Na dúvida, dedo.

Se a sua criança faz esporte de competição, treino diário ou natação, a organização é outra (ajuste de doses em dia de treino, carboidrato programado), e isso é conteúdo de consulta, com os dados dela. Eu faço esse ajuste junto com a endocrinologista das famílias que eu acompanho.

Hipoglicemia na escola

Deixar a criança na escola é confiar o tratamento a quem não conhece. A hipoglicemia é a situação em que isso mais pesa, porque ela precisa ser resolvida em minutos e por quem estiver na sala.

O que precisa existir, por escrito, assinado pela equipe médica, entregue à coordenação e à professora (e uma cópia na mochila):

  • Como reconhecer a hipo naquela criança: o sinal dela (na Livia, era ficar quieta demais). A escola não sabe o que é “comportamento fora do padrão” se ninguém descrever.
  • Como tratar: quanto de carboidrato, o que tem no kit dela, esperar 15 minutos, medir de novo. Com a quantidade escrita em unidades que a escola entende: “2 balas de glicose”, “meia caixinha de suco”.
  • O que não fazer: nunca mandar a criança sozinha pra enfermaria, pro banheiro ou pra casa com suspeita de hipo. Ela pode desmaiar no caminho. Alguém vai junto ou o tratamento vai até ela.
  • Quando ligar pra família (toda hipo, e sempre antes da educação física se estiver abaixo de 90) e quando chamar o SAMU (192): criança que não engole, confusa demais, convulsão, inconsciente. Se a escola tem glucagon e alguém treinado, a dose escrita.
  • Educação física: medir antes, kit à mão, professor avisado. Criança com diabetes faz educação física; a diferença é a preparação.
  • Celular e sensor: quando o celular é o visor do sensor, ele fica com a criança, ligado, e o alarme tem que poder tocar em sala.

A criança com diabetes tem direito de medir, de tratar a hipo e de comer em sala quando precisar. Isso não é favor da escola. Quando a resistência é medo, o plano por escrito resolve. Quando é má vontade, o plano vira documento. Eu escrevi mais sobre direitos e rotina escolar no guia do diabetes tipo 1 infantil, e vou publicar uma página só sobre escola, com carta modelo.

No bebê e na criança pequena

Se a sua criança tem menos de 5 ou 6 anos, a hipoglicemia tem particularidades, e a ISPAD tem um capítulo só sobre diabetes no pré-escolar. Três diferenças que mudam a conduta:

Ela não avisa. Bebê e criança pequena mostram a hipo no comportamento: para de brincar, encosta, olha pro nada, chora sem consolo, faz birra fora do padrão, dorme fora de hora, sua na cabeça. Cada criança tem o seu sinal, e a família aprende qual é. A regra que eu ensino é comportamento estranho, mede. Medir custa cinco segundos; adivinhar errado custa caro. Nessa idade o sensor é mais que conforto, é segurança, e a SBD recomenda monitorização intensiva pra todas as idades.

Ela come de forma imprevisível. Recusar o prato depois da insulina é a causa número um de hipo em criança pequena. Por isso muitas equipes orientam, nessa idade, aplicar parte do bolus antes e o resto depois da refeição, conforme o que ela comeu de fato, ou até o bolus inteiro logo depois, em quem usa insulina ultrarrápida. Isso é decisão da equipe, mas é uma pergunta que vale fazer na próxima consulta se a sua criança tem hipo depois de refeição recusada.

As doses são minúsculas. Meia unidade a mais numa criança de 12 kg é muita insulina. A Diretriz da SBD 2026 recomenda bomba de insulina pra menores de 7 anos exatamente por isso, e, sem bomba, caneta de meia unidade ou insulina diluída. Se a caneta da sua criança só marca de 1 em 1 unidade, pergunte sobre isso.

E o tratamento? Dose pelo peso (0,3 g por quilo: uma criança de 10 kg precisa de 3 g, que é menos de uma colher de chá de açúcar), dissolvida em pouca água ou passada na gengiva por dentro da bochecha, em gel de glicose. Mel só acima de 1 ano. Se ela dorme e o sensor mostra 60, acorde: uma criança de 2 anos que não acorda não vai engolir, e aí é glucagon. Toda família de criança pequena precisa saber preparar o glucagon de olho fechado, e é disso que a próxima seção trata.

Glucagon na prática

Glucagon é o hormônio que faz o fígado liberar a glicose que ele tem guardada. É o tratamento da hipoglicemia grave: a criança que não engole, que convulsiona, que está inconsciente. Nessas situações, nada vai pela boca, porque o risco de engasgo e de aspiração é real.

No Brasil, a única apresentação disponível é o kit injetável: um frasco com o pó e uma seringa com o diluente, pra misturar na hora e aplicar no músculo (coxa ou braço) ou embaixo da pele. A versão em pó nasal, que dispensa preparo, existe em outros países e ainda não chegou aqui. Em criança a dose costuma ser metade do frasco, mas isso é prescrição médica: a dose da sua criança precisa estar definida pela equipe antes, escrita e à mão. Emergência não é hora de decidir dose.

O que eu peço pra toda família fazer, antes de precisar:

  1. Abrir um kit vencido e treinar. Misturar, aspirar, aplicar numa laranja. Quem já fez uma vez faz na emergência. Quem nunca fez, trava. Toda pessoa que fica com a criança (pai, avó, babá, escola, se aceitar) faz esse treino.
  2. Saber onde ele está. Um em casa, num lugar fixo que todo mundo sabe, fora da geladeira se a bula permitir (confira a temperatura de conservação do kit que você tem). Um na mochila que viaja com a criança.
  3. Olhar a validade a cada seis meses. Coloque um lembrete no celular. Glucagon vencido na hora H é uma das histórias mais tristes que eu ouço.

Na hora:

  1. Prepare e aplique a dose prescrita. Não precisa limpar nada, não precisa esperar.
  2. Deite a criança de lado, porque náusea e vômito depois do glucagon são comuns.
  3. Ligue pro SAMU (192) se ela não acordar em 10 a 15 minutos, ou desde o começo se você está sozinha e com medo. Ninguém vai te julgar por chamar.
  4. Assim que ela conseguir engolir, dê carboidrato. O efeito do glucagon é curto, o fígado esvaziou o estoque, e a glicemia pode cair de novo.
  5. Avise a equipe no mesmo dia. Toda hipoglicemia grave precisa ser comunicada, mesmo que tenha resolvido em casa: ela quase sempre mostra uma dose que precisa de ajuste.

Existe ainda um uso diferente do glucagon, que a ISPAD descreve: a mini-dose por via subcutânea pra criança que está com hipoglicemia, consciente, mas não consegue segurar carboidrato (vômito, gastroenterite, recusa total). É uma dose bem menor que a da emergência e serve pra segurar a glicemia até a criança conseguir comer. Não é pra fazer por conta: só com orientação e dose definidas pela sua equipe. Vale perguntar se essa opção faz parte do plano de dia de doença da sua criança.

Eu tenho um texto mais antigo, só sobre como tratar a hipoglicemia severa, que complementa este.

O que fazer depois de uma hipoglicemia

Passou o susto, a glicemia subiu, a criança voltou a brincar. Agora vem a parte que quase ninguém faz e que é a que evita a próxima: aprender com essa.

Uma hipo isolada é informação. Três hipos no mesmo horário em uma semana é um padrão, e padrão pede ajuste de dose. Anote sempre horário, valor, o que aconteceu nas três horas anteriores (comida, insulina, exercício, banho, local de aplicação) e o que você deu pra tratar. Com o sensor, olhe o traçado do dia; sem sensor, o diário glicêmico que eu usava com a Livia serve.

Perguntas que eu faço quando uma família me traz um registro:

  • A hipo vem sempre depois da mesma refeição? A razão insulina/carboidrato daquela refeição pode estar forte demais, ou a contagem daquele prato está superestimada.
  • Vem de madrugada, sem exercício? Basal a mais, ou basal aplicada no horário errado.
  • Vem duas horas depois de uma correção? Insulina ativa somada, fator de sensibilidade forte demais.
  • Vem em dias de exercício? Falta do ajuste de bolus ou do lanche antes.
  • Vem depois de a criança ter tido várias hipos? Ela pode estar deixando de sentir (hipoglicemia assintomática), e o cérebro só recupera a sensibilidade com algumas semanas sem nenhuma hipo. Isso muda as metas temporariamente e é prioridade na consulta.

O ajuste de dose é com a endocrinologista. Mas o registro que permite o ajuste é seu, e uma consulta com registro rende dez vezes mais do que uma consulta com “ela anda tendo umas hipos”.

E depois de uma hipo grave, além de avisar a equipe, cuide de quem tratou. Aplicar glucagon na própria filha inconsciente é uma das experiências mais violentas que uma mãe pode viver, e o corpo cobra depois. Isso não se resolve sozinha.

O medo da hipoglicemia

Eu preciso falar disso, porque o medo da hipoglicemia é a causa mais comum de glicemia alta crônica em criança, e quase ninguém nomeia.

Funciona assim: a mãe vive uma hipo grave, ou uma noturna que assustou. A partir daí, sem perceber, ela começa a deixar a glicemia “um pouco mais alta, por segurança”. Reduz o bolus, aumenta a meta, dá um lanche extra antes de dormir “por via das dúvidas”. A hipo some, a glicada sobe pra 9, e a hiperglicemia crônica, que nos primeiros anos de vida mexe com o desenvolvimento do cérebro, entra no lugar do risco que ela estava evitando. Eu já estive nesse lugar. Depois do 23 mg/dL dois dias após a alta, eu passei meses dormindo com o glicosímetro na mão e a glicemia da Livia acima de 200.

O que tira a família desse ciclo é estrutura, e ela tem cinco partes:

  • Conhecimento. Saber por que a hipo aconteceu tira ela do lugar de imprevisível. É o que este texto tenta fazer.
  • Sensor com alarme. É o que permite baixar a meta com segurança.
  • Plano escrito pra cada situação: noite, escola, exercício, glucagon. Plano escrito é o que faz você conseguir delegar.
  • Uma segunda pessoa que sabe tudo. Se só você sabe cuidar, você não dorme, e mãe que não dorme não decide bem.
  • Terapia, quando o medo virou insônia, checagem compulsiva do sensor ou pânico com número. Isso é comum, é tratável e não é fraqueza.

Se a glicada da sua criança está alta e você sabe que é porque você tem medo de baixar, isso é uma conversa pra ter com a equipe, sem vergonha. É um dos assuntos mais frequentes no nosso grupo de mães, e ninguém ali vai te julgar.

Adolescente

Com o adolescente, o risco muda de forma. Ele já reconhece e trata a hipo sozinho (ou deveria), mas aparecem situações novas:

  • Álcool bloqueia a liberação de glicose pelo fígado e aumenta o risco de hipo tardia, inclusive de madrugada, quando ele já está dormindo. Regra de sobrevivência: nunca beber sem comer, medir antes de dormir, e alguém em casa sabendo que ele bebeu.
  • Dormir fora, sair sozinho, viajar. Kit de hipo e glucagon vão junto, e um amigo ou adulto do lugar precisa saber o que fazer. Isso não é vigilância, é o mesmo que ensinar a usar o cinto de segurança.
  • Dirigir (a partir dos 18): medir antes de pegar o carro, não dirigir abaixo de 90, kit no porta-luvas. A hipo ao volante é uma emergência de trânsito.
  • Esconder hipo por vergonha, na escola ou com amigos. Quanto mais o diabetes é tratado como coisa normal em casa, menos ele esconde fora.

O que eu vejo funcionar é a família passar a responsabilidade aos poucos, com combinados claros, sem largar de uma vez aos 13 e sem controlar tudo aos 17.

Por onde continuar

Hipoglicemia é o módulo em que mais mãe chega com medo e sai com plano. A Trilha DM1 é gratuita, tem cinco módulos (recém-diagnosticado, entendendo a doença, insulina, alimentação, qualidade de vida) e organiza tudo isso em ordem.

Começar a Trilha DM1 (gratuita)

Se você quer montar a tabela de hipo da sua criança, revisar o plano de noite e de exercício com os números dela, eu atendo online famílias de todo o Brasil no acompanhamento nutricional em diabetes.

Um abraço. Vai dar certo.

Perguntas frequentes

O que fazer quando meu filho com diabetes tipo 1 tem hipoglicemia à noite?

Acorde a criança o suficiente pra ela engolir, dê a dose de carboidrato rápido dela (cerca de 0,3 g por quilo, até 15 g), espere 15 minutos e meça de novo. Abaixo de 70, repita. Depois, se faltam mais de três horas pro café, se houve exercício no dia ou se há insulina rápida ativa, dê um lanche pequeno com carboidrato lento e proteína. Se ela não acorda, não engole ou está convulsionando, nada pela boca: glucagon e SAMU (192).

Posso deixar minha filha dormir depois de tratar a hipoglicemia?

Sim, quando a glicemia voltou pra cima de 80, está estável no sensor, não há insulina rápida ativa e o alarme de baixa está ligado. Se houve exercício à tarde ou a hipo foi abaixo de 54, vale uma nova medida em 1 hora.

Quanto de açúcar dar pra criança com hipoglicemia?

A ISPAD orienta cerca de 0,3 g de glicose por quilo de peso: uma criança de 10 kg precisa de 3 g, uma de 20 kg de 6 g, e a partir de 50 kg, 15 g. Dar 15 g pra uma criança pequena trata demais e a glicemia dispara depois. A quantidade certa é combinada com a equipe.

Criança acorda com glicemia alta depois de hipoglicemia à noite?

Pode acontecer, e a causa mais comum é ter tratado a hipo com açúcar demais. O “rebote” em que o corpo responde à hipo com uma alta enorme existe, mas é menos frequente do que se pensava; uma manhã alta pode ser também o fenômeno do alvorecer ou basal de menos. Só o traçado do sensor ou uma medida de madrugada mostra o que houve.

Como evitar hipoglicemia no exercício?

Medir antes: abaixo de 90 mg/dL, carboidrato antes de começar. Se a atividade cai até duas horas depois de uma refeição, a equipe pode orientar um ajuste na dose daquela refeição. Em atividade longa, carboidrato durante. Depois, lanche, alarme ligado à noite e, em dia de exercício intenso, uma medida de madrugada, porque o efeito dura até 24 horas.

Qual a dose de glucagon pra criança?

Em geral, metade do frasco do kit injetável (o único disponível no Brasil), mas a dose é prescrita pela equipe e precisa estar escrita e à mão antes de qualquer emergência. Depois do glucagon: criança de lado, SAMU se não acordar em 10 a 15 minutos, carboidrato assim que engolir, e avisar a equipe no mesmo dia.

A escola pode se recusar a tratar a hipoglicemia?

A criança tem direito de medir a glicemia, tratar a hipoglicemia e comer em sala quando precisar. A escola não é obrigada a ter profissional de saúde, mas é obrigada a permitir o cuidado e a chamar socorro. O que resolve na prática é um plano de cuidado por escrito, assinado pela equipe médica, com o passo a passo da hipoglicemia daquela criança.

Quantas hipoglicemias por semana são normais em criança com diabetes tipo 1?

Nenhuma é desejável, mas algumas leves são esperadas em quem usa insulina. A meta das diretrizes, pelo sensor, é menos de 4% do tempo abaixo de 70 mg/dL (menos de 1 hora por dia) e menos de 1% abaixo de 54. Hipos repetidas no mesmo horário, ou qualquer hipo grave, pedem ajuste de dose com a equipe.

Fontes

  • Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz da SBD, edição 2026. Capítulos “Metas de controle glicêmico” (https://diretriz.diabetes.org.br/metas-de-controle-glicemico/), “Peculiaridades do tratamento da criança com DM1” (https://diretriz.diabetes.org.br/peculiaridades-do-tratamento-da-crianca-com-dm1/) e “Atividade física e exercício no DM1”.
  • Abraham MB, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Assessment and management of hypoglycemia in children and adolescents with diabetes. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1322-1340.
  • Adolfsson P, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Exercise in children and adolescents with diabetes. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1341-1372.
  • Sundberg F, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Managing diabetes in preschoolers. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1496-1511.
  • de Bock M, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2024: Glycemic targets and glucose monitoring for children, adolescents, and young people with diabetes. Hormone Research in Paediatrics. 2024.
  • American Diabetes Association. Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). https://doi.org/10.2337/dc26-S006
  • Battelino T, et al. Clinical targets for continuous glucose monitoring data interpretation: recommendations from the International Consensus on Time in Range. Diabetes Care. 2019;42(8):1593-1603.
Christine Rolke

Texto escrito por Christine Rolke, nutricionista (CRN 24102380), mestre em Imunologia, educadora em diabetes e mãe de criança com diabetes tipo 1. Conheça a minha história.

Revisado em 14/09/2026. Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação da equipe que acompanha a sua criança. Doses de insulina, de carboidrato pra hipoglicemia e de glucagon são sempre individuais e definidas pela equipe.