Quanto é uma glicemia normal? E pra quem tem diabetes tipo 1, qual valor é “bom” antes do almoço, duas horas depois, na hora de dormir? Essas são as perguntas que mais chegam pra mim, e a resposta muda dependendo de quem está perguntando: uma pessoa sem diabetes fazendo check-up ou uma mãe olhando o glicosímetro da filha.
Eu sou a Christine, nutricionista, educadora em diabetes e mãe da Livia, que tem diabetes tipo 1 desde os 13 meses. Esse texto tem as duas tabelas, separadas de propósito, e no final tem o diário glicêmico que eu montei pra anotar as glicemias, em PDF pra imprimir.
Antes das tabelas, uma coisa que eu digo pra todos os meus pacientes: a tabela diz onde chegar; o gráfico diz o que está impedindo. É assim que eu trabalho no acompanhamento nutricional. Eu não olho a meta, eu olho o gráfico do sensor ou as anotações e vou atrás de onde a glicemia sobe. Quase sempre é uma refeição específica, e quase sempre tem solução sem tirar o que a pessoa gosta de comer. A gente vai ajustando pico por pico, refeição por refeição, respeitando os gostos e os hábitos de cada um. Atendo crianças e adultos, com diabetes tipo 1 ou tipo 2. Se quiser, fala comigo.
Primeiro: qual tabela você precisa?
Existem duas tabelas de glicemia, e misturar as duas gera muita confusão.
- Tabela de diagnóstico: os valores que definem se uma pessoa tem glicemia normal, pré-diabetes ou diabetes. Serve pra quem ainda não tem o diagnóstico.
- Tabela de metas: os valores que uma pessoa que já tem diabetes tenta manter no dia a dia. São mais largos que os da primeira tabela, porque quem usa insulina não consegue (nem deve tentar) imitar o pâncreas com precisão total.
Se você pesquisou “glicemia normal” pra entender um exame de sangue, a primeira tabela responde. Se você é mãe de criança com diabetes tipo 1, a segunda é a que importa.
Tabela 1: valores de referência da glicemia (diagnóstico)

Valores em sangue venoso (exame de laboratório), segundo a Diretriz da SBD 2026 e a ADA 2026:
| Exame | Normal | Pré-diabetes | Diabetes |
|---|---|---|---|
| Glicemia de jejum (8 h sem comer) | Abaixo de 100 mg/dL | 100 a 125 mg/dL | 126 mg/dL ou mais |
| Glicemia 2 h após 75 g de glicose (TOTG) | Abaixo de 140 mg/dL | 140 a 199 mg/dL | 200 mg/dL ou mais |
| Glicemia ao acaso (qualquer hora) | 200 mg/dL ou mais, com sintomas | ||
| Hemoglobina glicada | Abaixo de 5,7% | 5,7% a 6,4% | 6,5% ou mais |
Pra fechar o diagnóstico, a regra é ter dois exames alterados (o mesmo repetido ou dois diferentes), exceto quando a pessoa tem sintomas claros (muita sede, muito xixi, perda de peso) e uma glicemia ao acaso de 200 ou mais. Aí um exame basta.
No diabetes tipo 1 da criança, é quase sempre esse último cenário. A criança chega com 300, 400, às vezes mais, e com sintomas há semanas. Não tem “pré-diabetes tipo 1” pra família ficar acompanhando. Se você está lendo isso porque a glicemia da sua filha deu alta num exame de rotina, sem sintomas, o caminho é repetir com o pediatra rápido, não esperar.
Tabela 2: metas de glicemia pra quem tem diabetes tipo 1
Aqui a lógica muda. Não é mais “qual é o normal”, é “qual é a faixa segura e realista pra quem depende de insulina de fora”. As metas abaixo são da Diretriz da SBD 2026 (Tabela 3 do capítulo de metas), pra crianças e adolescentes, e batem com a ISPAD 2024:
| Momento | Meta (mg/dL) |
|---|---|
| Jejum e antes das refeições | 70 a 130 |
| 2 horas depois do início da refeição | Abaixo de 180 |
| Ao deitar | 90 a 150 |
| Madrugada | Acima de 70, sem tendência de queda |
| Sensor: tempo entre 70 e 180 | Mais de 70% do dia |
| Sensor: tempo abaixo de 70 | Menos de 4% do dia |
| Sensor: tempo abaixo de 54 | Menos de 1% do dia |
Alguns comentários que eu faço com todos os meus pacientes:
O limite de baixo importa mais que o de cima. Uma glicemia de 190 duas horas depois do almoço não é emergência. Uma de 65 antes de dormir é. Por isso a meta ao deitar começa em 90, e não em 70: é uma margem de segurança pra noite.
A meta é individual. Uma criança de 2 anos que não sabe dizer que está com hipoglicemia pode ter metas mais altas que uma adolescente com sensor e bomba, e um adulto com diabetes tipo 2 sem insulina tem outras prioridades. Os números da tabela são o ponto de partida; a sua equipe ajusta.
Sem sensor, a glicemia capilar é uma foto. Com sensor, é um filme. A ponta de dedo mostra o número naquele instante. O sensor mostra pra onde ele está indo. Uma glicemia de 100 com seta pra baixo antes do banho é mais preocupante que uma de 160 estável.
O que fazer com cada faixa
Uma tabela prática, do jeito que eu ensino pras famílias. Os valores são gerais; a conduta específica (quanto de carboidrato, quanto de correção) é sempre a que a equipe da sua criança definiu.
| Glicemia | Situação | O que costuma ser feito |
|---|---|---|
| Abaixo de 54 | Hipoglicemia grave (nível 2) | Tratar imediatamente com carboidrato rápido; se inconsciente, glucagon |
| 54 a 69 | Hipoglicemia (nível 1) | Carboidrato rápido, medir de novo em 15 min |
| 70 a 130 | Alvo antes das refeições | Seguir o plano: contagem de carboidrato e bolus normal |
| 130 a 180 | Aceitável depois de comer; um pouco alto antes | Sem correção depois de refeição; antes, seguir o esquema de correção da equipe |
| 180 a 250 | Hiperglicemia | Correção conforme o fator de sensibilidade; água; observar |
| Acima de 250 | Hiperglicemia importante | Correção, água, e medir cetonas (sangue ou urina) |
| Acima de 250 com cetonas | Risco de cetoacidose | Seguir o protocolo de dias de doença; contato com a equipe; se vômito ou respiração rápida, emergência |
Eu escrevi um texto só sobre sintomas de hipoglicemia e como tratar, com o passo a passo e as quantidades.
Por que a glicemia da criança oscila tanto
Muita mãe chega em mim achando que está fazendo algo errado porque a glicemia da filha “não obedece”. Não é você. E, se você é adulto com diabetes e se reconhece nisso, vale saber que na criança é ainda mais difícil. Criança com diabetes tipo 1 tem mais variabilidade que adulto por motivos fisiológicos:
- Doses pequenas, efeito grande. Meia unidade de insulina numa criança de 15 kg muda muito a glicemia. O erro de arredondamento da caneta já faz diferença.
- Alimentação imprevisível. Ela come metade do prato, ou pede repetir, ou cospe. A insulina já foi aplicada.
- Atividade que não avisa. Corrida no recreio, festa de aniversário, birra de 20 minutos. Tudo gasta glicose.
- Crescimento e hormônios. Hormônio do crescimento sobe a glicemia de madrugada (o famoso fenômeno do alvorecer). Na puberdade, a resistência à insulina aumenta e as doses precisam subir.
- Doença. Qualquer infecção sobe a glicemia por dias, mesmo sem febre ainda.
- Lua de mel. Nos primeiros meses depois do diagnóstico, o pâncreas ainda produz um pouco de insulina e a glicemia fica “fácil”. Depois isso acaba e as doses mudam.
Por isso a Diretriz da SBD 2026 recomenda bomba de insulina como método de preferência pra crianças menores de 7 anos, e sensor pra todas as idades: não é luxo, é o que permite buscar meta mais apertada sem hipoglicemia.
Diário glicêmico pra imprimir
Antes de a Livia usar bomba e sensor, eu anotava tudo em papel. Depois eu transformei aquela tabela no diário glicêmico que uso até hoje com os meus pacientes que fazem ponta de dedo. É um mês inteiro numa folha só, e serve como registro pra levar na consulta quando o médico pede “as glicemias dos últimos 30 dias”:

Baixar o diário glicêmico em PDF (pra imprimir em A4 paisagem)
Como ele funciona:
- Uma linha por dia do mês, com a coluna de basal logo no começo (a dose de insulina lenta do dia).
- Pra cada refeição (café, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia): glicemia antes, carboidrato em gramas, insulina rápida aplicada e glicemia 2 h depois.
- A última coluna é a glicemia das 3 h da manhã, que é a medida que mais ajuda a ajustar a basal.
- A coluna de carboidrato é a que mais ensina. Depois de duas semanas anotando, você começa a ver que o café da manhã sempre estoura, ou que o jantar sempre baixa. Isso é o que o médico precisa pra mexer na relação insulina/carboidrato.
Se você prefere uma planilha ajustada à sua rotina (horários da escola ou do trabalho, número de refeições, caneta ou bomba), é só falar comigo.
Aplicativos e relatórios do sensor
Hoje a maioria das famílias não anota mais em papel. O sensor (FreeStyle Libre, Dexcom, Guardian) gera relatório automático, e aplicativos como o Glic, o mySugr e o próprio LibreView fazem o papel do diário. O relatório que o médico mais usa é o AGP (perfil ambulatorial de glicose), que resume 14 dias em um gráfico só: mediana, faixas de variação, tempo no alvo.
Mesmo assim, o hábito de anotar o contexto (o que comeu, se fez exercício, se estava doente) continua valendo. O sensor sabe o número. Você sabe o motivo.
Perguntas frequentes
Abaixo de 100 mg/dL pra quem não tem diabetes. Entre 100 e 125 é glicemia de jejum alterada (pré-diabetes). A partir de 126, em dois exames, é diabetes.
Em quem não tem diabetes, abaixo de 140 mg/dL duas horas depois da refeição. Pra quem tem diabetes tipo 1, a meta é abaixo de 180 mg/dL duas horas depois do início da refeição.
Entre 70 e 130 mg/dL antes das refeições, abaixo de 180 duas horas depois, e entre 90 e 150 ao deitar (SBD 2026). Com sensor, mais de 70% do tempo entre 70 e 180. A meta individual é definida com a equipe.
Não é emergência, mas está acima da meta. Em quem tem diabetes tipo 1, costuma ser corrigida com insulina conforme o fator de sensibilidade. Acima de 250, é importante medir cetonas.
Abaixo de 70 mg/dL é hipoglicemia. Em 70 exato, com seta pra baixo no sensor ou antes de dormir, muitas equipes já orientam um lanche.
Sem sensor, a recomendação pra diabetes tipo 1 é no mínimo 6 a 10 vezes por dia: antes das refeições, 2 h depois, ao deitar, de madrugada quando necessário, e sempre que houver sintoma. Com sensor, a leitura é contínua.
A tabela de diagnóstico é a mesma. As metas do dia a dia são parecidas (70 a 130 antes, abaixo de 180 depois), mas no tipo 1, principalmente em criança, a meta ao deitar e o cuidado com hipoglicemia são mais rígidos, porque a insulina injetada não se ajusta sozinha.
Leia também
- Diabetes tipo 1 infantil: o guia pra quem acabou de receber o diagnóstico
- Hipoglicemia em crianças com diabetes tipo 1: prevenir, tratar e voltar a dormir
- Sintomas de hipoglicemia: como reconhecer e o que fazer
- Tabela de hemoglobina glicada: valores e o que cada um significa
- Trilha: curso gratuito sobre diabetes tipo 1 pra família
Fontes
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz da SBD, edição 2026. Capítulos “Diagnóstico de diabetes mellitus” (https://diretriz.diabetes.org.br/diagnostico-de-diabetes-mellitus/), “Metas de controle glicêmico” (https://diretriz.diabetes.org.br/metas-de-controle-glicemico/) e “Peculiaridades do tratamento da criança com DM1” (https://diretriz.diabetes.org.br/peculiaridades-do-tratamento-da-crianca-com-dm1/).
- de Bock M, Agwu JC, et al. International Society for Pediatric and Adolescent Diabetes Clinical Practice Consensus Guidelines 2024: Glycemic Targets. Horm Res Paediatr. 2024;97(6):546-554. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39701064/
- American Diabetes Association. Diagnosis and Classification of Diabetes; Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). https://doi.org/10.2337/dc26-S006
- Battelino T, et al. Clinical targets for continuous glucose monitoring data interpretation: recommendations from the International Consensus on Time in Range. Diabetes Care. 2019;42(8):1593-1603. (consenso vigente, adotado pela SBD 2026 e ISPAD 2024)
Texto escrito por Christine Rolke, nutricionista (CRN 24102380), educadora em diabetes e mãe de criança com diabetes tipo 1. Revisado em 13/09/2026. Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação da equipe que acompanha você ou a sua criança. Metas e condutas são sempre individuais.