Cetoacidose diabética é o que acontece quando falta insulina por tempo suficiente pro corpo passar a queimar gordura e encher o sangue de cetonas, que são ácidas. Ela não aparece do nada: vem de horas de glicemia alta, sede, xixi, enjoo e cansaço, e dá pra pegar no começo medindo cetona. Vômito, dor de barriga, respiração rápida e sonolência são sinais de que a hora de agir em casa já passou: é pronto-socorro. Este guia ensina a medir, a agir em dia de doença e a reconhecer o momento de ir pro hospital sem dúvida.
Se você é mãe de uma criança com diabetes tipo 1, “cetona” provavelmente é uma palavra que você aprendeu na alta do hospital e torce pra nunca precisar usar. Eu entendo. Mas eu prefiro que você saiba exatamente o que ela significa, porque a cetoacidose é a complicação aguda mais grave do diabetes tipo 1 e, ao mesmo tempo, uma das mais evitáveis. Quase toda cetoacidose de quem já tem o diagnóstico dá sinal com muitas horas de antecedência. O que separa um dia ruim em casa de uma internação na UTI, na maioria das vezes, é a família saber medir cetona, saber o que fazer com o número e não hesitar na hora de ir pro hospital.
Eu sou a Christine, nutricionista, educadora em diabetes, professora de Medicina e mãe da Livia, que tem diabetes tipo 1 desde os 13 meses. Este texto é o capítulo de cetonas e dias de doença que eu dou nas minhas aulas, escrito pra você ler com calma agora e voltar correndo no dia em que precisar.
Se você ainda está entendendo o que é o diabetes tipo 1, comece pelo guia do diagnóstico. Se o problema é glicemia baixa, o texto é outro: hipoglicemia em crianças.
O que é cetoacidose, em dois minutos
Vamos começar pelo mecanismo, porque tudo o que vem depois (por que medir, por que não suspender insulina, por que vômito é sinal de alerta) faz sentido quando a gente entende o que está acontecendo dentro do corpo.
A insulina é a chave que abre a porta da célula pra glicose entrar. Quando falta insulina, a glicose fica presa no sangue, a glicemia sobe, e as células ficam sem energia, mesmo com açúcar sobrando do lado de fora. O corpo interpreta isso como fome. E o que o corpo faz quando acha que está passando fome? Quebra gordura pra gerar energia. Esse processo, a lipólise, produz no fígado os corpos cetônicos: acetoacetato, beta-hidroxibutirato e acetona.
Em pequena quantidade, cetona é normal. Qualquer pessoa em jejum longo produz um pouco. O problema no diabetes tipo 1 é que, sem insulina, o freio não existe: a produção de cetona não para, e como os corpos cetônicos são ácidos, o sangue vai ficando cada vez mais ácido. É isso que a palavra quer dizer: ceto (cetona) + acidose (sangue ácido).
Junto com isso acontece a desidratação. A glicose alta puxa água pro xixi (é por isso que a criança faz xixi demais e tem sede demais), e o corpo perde, além de água, sódio e potássio. A cetona ainda dá náusea e vômito, que pioram a desidratação. É um ciclo que se retroalimenta: menos insulina, mais cetona, mais vômito, mais desidratação, mais hormônios de estresse, mais glicemia, menos insulina funcionando.
A definição formal, que a SBD 2026 e a ISPAD 2022 usam, tem três partes: glicemia acima de 200 mg/dL, cetona alta no sangue (beta-hidroxibutirato igual ou acima de 3 mmol/L) ou moderada a grande na urina, e sangue ácido (pH abaixo de 7,3 ou bicarbonato abaixo de 18 mmol/L). A gravidade é definida pelo pH: leve, moderada ou grave. Você não vai medir pH em casa. O que você mede em casa é glicemia e cetona, e é isso que decide o que fazer.
Um detalhe que engana muita gente: a cetoacidose nem sempre vem com glicemia altíssima. A criança que está vomitando, sem comer, com pouca insulina no corpo, pode ter cetona alta com glicemia de 180. Existe até a cetoacidose “euglicêmica”, com glicemia quase normal, mais comum em quem usa medicamentos da classe dos inibidores de SGLT2 (adultos com diabetes, principalmente) ou em gestantes. Então a regra é: quem decide se tem cetona é a fita de cetona, não o glicosímetro.
Por que ela acontece
Cetoacidose é sempre falta de insulina em relação ao que o corpo precisa naquele momento. As situações em que isso acontece são poucas e conhecidas.
1. No diagnóstico. É a causa mais comum de cetoacidose em criança, e a mais triste, porque ela vem de dias ou semanas de sintomas que não foram reconhecidos: sede, xixi, emagrecimento, cansaço. No Brasil, cerca de metade das crianças ainda descobre o diabetes tipo 1 já em cetoacidose (46% em Campina Grande entre 2009 e 2019; 59% num serviço de referência em Santa Catarina entre 2018 e 2021). Quanto menor a criança, maior a chance, porque em bebê os sintomas são confundidos com virose e com “fase”. Se você chegou aqui procurando pelos sintomas em uma criança que ainda não tem diagnóstico, vá direto pro guia do diagnóstico e peça uma glicemia hoje.
2. Insulina que não foi aplicada. Em quem já tem diabetes, essa é a causa número um. Dose esquecida, caneta que estava vazia, insulina que estragou no calor, e, na adolescência, dose omitida de propósito (falo disso numa seção própria). A basal esquecida é a mais perigosa, porque ela é a insulina que segura o corpo entre as refeições e durante a noite.
3. Doença. Febre, virose, infecção de garganta, gastroenterite, infecção urinária. O corpo doente produz hormônios de estresse (cortisol, adrenalina e glucagon, que no diabetes tipo 1 já está sem freio) que fazem duas coisas ao mesmo tempo: sobem a glicemia e atrapalham a ação da insulina. A criança precisa de mais insulina justamente no dia em que come menos. O erro clássico, que eu vejo todo mês, é a família reduzir ou suspender a insulina “porque ela não está comendo”. É o caminho mais curto pra cetoacidose.
4. Bomba de insulina. Quem usa bomba não tem insulina de ação longa no corpo. Toda a insulina é rápida, entregue gota a gota. Se o cateter dobra, sai do lugar ou entope, em 3 a 4 horas a criança já está sem insulina nenhuma, e em 6 a 8 horas pode ter cetona. Por isso quem usa bomba mede cetona mais vezes e mais cedo do que quem usa caneta.
5. Situações menos comuns. Cirurgia, trauma, uso de corticoide, e em adultos, os inibidores de SGLT2 que eu citei. Nessas situações a equipe costuma orientar de antemão.
A ISPAD estima que, em crianças que já têm o diagnóstico, o risco de cetoacidose fica entre 1 e 10 por 100 pacientes-ano, e que a maior parte desses episódios está ligada a omissão de insulina ou a manejo inadequado de dia de doença. Ou seja: a maioria é evitável, com informação e com um plano.
Os sinais, do primeiro ao último
A cetoacidose tem uma ordem. Ela começa devagar, com sinais de glicemia alta, passa por sinais de cetona, e só no fim aparecem os sinais de acidose. Quanto mais cedo na lista você agir, mais simples é a solução.
Fase 1, glicemia alta (horas a dias): sede, muito xixi (inclusive voltar a fazer xixi na cama), boca seca, cansaço, irritação, visão embaçada. Em bebê: fralda encharcada demais, mamando muito, choro sem consolo.
Fase 2, cetona subindo: enjoo, falta de apetite, dor de barriga, mal-estar, hálito com cheiro adocicado (de acetona, parecido com maçã passada ou removedor de esmalte; é diferente do mau hálito de gengivite, que escovar melhora, como explico em saúde bucal no diabetes tipo 1). A criança fica quieta, prostrada, “estranha”.
Fase 3, acidose (emergência): vômito, dor de barriga forte, respiração rápida e profunda (a chamada respiração de Kussmaul, que é o corpo tentando soltar o ácido pelo pulmão), sonolência, confusão, dificuldade de acordar. Em criança pequena, a respiração rápida costuma ser confundida com bronquiolite ou pneumonia, e o vômito com virose intestinal.
Duas regras que eu repito em toda aula:
Vômito em criança com diabetes tipo 1 é cetona até prova em contrário. Pode ser virose, claro. Mas a primeira coisa a fazer com uma criança com DM1 que vomitou é medir glicemia e cetona, antes de qualquer remédio pra enjoo.
Dor de barriga com glicemia alta é cetona até prova em contrário. A cetoacidose dá uma dor abdominal que já foi confundida com apendicite no pronto-socorro. Ao contrário, também: criança com DM1 e dor de barriga precisa da cetona medida antes de a equipe pensar em cirurgia.
Se você está lendo isso agora com uma criança na fase 3, pare de ler. Pegue o glicosímetro, a fita de cetona e vá pro pronto-socorro (ou ligue 192 se ela estiver sonolenta ou respirando rápido). O resto do texto espera.
Como e quando medir cetona
Existem dois jeitos de medir cetona em casa, e eles não medem a mesma coisa.

Fita de sangue (cetonemia). Mede o beta-hidroxibutirato, que é a cetona que mais sobe na cetoacidose e a que responde mais rápido ao tratamento. Precisa de um aparelho que leia cetona (alguns glicosímetros fazem os dois, com fitas diferentes) e uma gota de sangue do dedo. O resultado sai em mmol/L. É o método que a ISPAD e a SBD recomendam, porque mostra o que está acontecendo agora e permite acompanhar se está subindo ou descendo.
Fita de urina (cetonúria). Mede acetoacetato, e mostra o resultado em cruzes ou em “traços, pequeno, moderado, grande”. É mais barata e fácil de achar, mas tem dois problemas. O primeiro é o atraso: a urina que está na bexiga foi produzida horas atrás, então a fita mostra o passado. O segundo é que, durante o tratamento, ela pode continuar positiva mesmo com o sangue já melhorando, porque o corpo converte beta-hidroxibutirato em acetoacetato conforme se recupera. Isso assusta e leva a decisões erradas. Em bebê que usa fralda, dá pra espremer o algodão ou encostar a fita na fralda molhada, mas o resultado é ainda menos preciso.
Minha orientação é: se puder, tenha as duas em casa, e use a de sangue pra decidir. Se só tiver a de urina, use, é muito melhor que nada. Confira a validade e feche bem o frasco das fitas de urina, porque elas estragam com umidade e passam a dar resultado falso.
Quando medir. A regra que eu ensino:
- Glicemia acima de 250 mg/dL que não desce depois de uma correção, ou que se mantém acima de 250 por mais de duas horas.
- Qualquer glicemia acima de 300 mg/dL.
- Qualquer dia de doença: febre, virose, vômito, diarreia, infecção. Mesmo com a glicemia boa.
- Enjoo, vômito, dor de barriga ou hálito adocicado, com qualquer glicemia.
- Em bomba: glicemia alta sem explicação, ou duas correções seguidas que não funcionaram.
- Quando a criança está “estranha”, prostrada, e você não sabe por quê.
E depois de medir e agir, medir de novo em duas horas. Uma medida isolada diz onde você está; a segunda diz pra onde está indo.
Tenha fita de cetona em casa desde a primeira semana do diagnóstico, na mochila que viaja com a criança e na escola. Fita de cetona é o exame que decide se você fica em casa ou vai pro hospital.
O que cada valor de cetona quer dizer
Esta é a tabela que eu peço pra toda família colar na porta da geladeira. Os cortes são os da ISPAD 2022 e da SBD 2026. O que fazer em cada faixa (quanto de insulina extra, de quanto em quanto tempo) vem do plano de dia de doença que a sua equipe escreve pra sua criança; aqui vai o princípio.
| Cetona no sangue | Fita de urina (aprox.) | O que significa | O que fazer |
|---|---|---|---|
| Abaixo de 0,6 mmol/L | Negativa ou traços | Normal | Nada além do de sempre. Se a glicemia está alta, corrigir como o plano manda |
| 0,6 a 1,4 mmol/L | Pequena a moderada | Cetona presente, começo do problema | Insulina extra conforme o plano de dia de doença, água a cada 15 a 30 minutos, medir glicemia e cetona de novo em 2 horas. Avisar a equipe |
| 1,5 a 2,9 mmol/L | Moderada a grande | Risco alto de cetoacidose | Insulina extra conforme o plano, líquido, medir em 1 a 2 horas. Ligar pra equipe agora. Se não cair na próxima medida, ou se houver vômito, pronto-socorro |
| 3,0 mmol/L ou mais | Grande | Cetoacidose provável | Pronto-socorro. Não esperar a próxima medida |
Duas observações sobre essa tabela.
A primeira: cetona com glicemia baixa ou normal (abaixo de 150, digamos) numa criança que está sem comer ou vomitando é a chamada cetona de jejum. O corpo está queimando gordura porque não tem glicose, não porque falta insulina. O tratamento não é só insulina: é carboidrato (líquido com açúcar, em goles pequenos) junto com insulina, pra dar glicose pra célula usar e sinalizar pro corpo parar de quebrar gordura. Se a criança não segura o líquido, ela não vai conseguir resolver isso em casa, e é hospital pra receber soro com glicose. Esse cenário é o que mais confunde as famílias, porque o instinto é “glicemia normal, então está tudo bem”.
A segunda: cetona que não cai em duas medidas seguidas, mesmo fazendo tudo certo, é motivo pra ir. Não espere a terceira.
Dia de doença: o protocolo da família
Dia de doença é qualquer dia em que a criança está com febre, infecção, virose, vômito ou diarreia. É a situação mais comum em que uma criança que já tem diabetes chega à cetoacidose, e é a mais fácil de treinar, porque as regras são as mesmas em toda diretriz. A ISPAD tem um capítulo inteiro só sobre isso (Laffel, 2022), e a SBD reforça no capítulo de cetoacidose.

Os seis princípios:
1. Nunca suspender a insulina. Nem a basal, nem o bolus de correção. A criança doente precisa de mais insulina, não de menos, mesmo comendo pouco ou nada. O que muda é o bolus de refeição, que acompanha o que ela realmente comeu. Suspender a basal “porque ela não comeu” é a causa mais frequente de internação evitável que eu conheço.
2. Medir mais. Glicemia a cada 2 a 3 horas, inclusive durante a noite. Cetona a cada 2 a 4 horas enquanto estiver positiva, ou sempre que a glicemia estiver acima de 250. Sensor ajuda muito, mas em dia de doença, com desidratação e febre, confirme os valores estranhos na ponta do dedo: o sensor lê o líquido entre as células, e com a criança desidratada ele pode ficar impreciso.
3. Insulina extra pra cetona, conforme o plano. Quando há cetona, a criança precisa de insulina rápida a mais, além da correção normal da glicemia, porque a cetona só some quando tem insulina de sobra pra fechar a torneira da gordura. Quanto a mais, e de quanto em quanto tempo, é conta que a equipe faz pra sua criança e escreve no plano de dia de doença. Se você não tem esse plano por escrito, peça na próxima consulta. Não é pra improvisar com número de internet.
4. Líquido, em goles, o tempo todo. A desidratação é metade da cetoacidose. A meta é a criança beber um pouco a cada 15 a 30 minutos, mesmo sem vontade. Se a glicemia está alta: água, chá sem açúcar, água de coco com moderação, caldo. Se a glicemia está normal ou baixa e ela não está comendo: líquido com carboidrato (suco diluído, isotônico, água com um pouco de açúcar, gelatina, picolé de fruta), pra evitar hipoglicemia com a insulina extra e pra dar glicose pra célula. Picolé, sorvete de fruta e gelatina são meus aliados com criança pequena que não quer beber nada.
5. Carboidrato, mesmo sem apetite. Se a criança não come sólido, ofereça carboidrato em forma de líquido ou de algo fácil (bolacha de água e sal, torrada, purê, mingau, banana). Cerca de 10 a 15 g de carboidrato a cada 1 a 2 horas é a orientação geral das diretrizes pra quem não está comendo, e a dose de insulina acompanha isso. Sem carboidrato, a criança faz cetona de jejum e hipoglicemia.
6. Remédio pra febre e pra dor, sim. Paracetamol, dipirona e ibuprofeno podem ser usados com a orientação do pediatra. Xarope com açúcar: prefira a versão sem açúcar quando existir, e quando não existir, conte o carboidrato e trate a criança, não o rótulo. Remédio pra enjoo só com orientação médica, porque ele pode mascarar o vômito da cetoacidose. Alguns remédios interferem na leitura de sensor e de fitas: se a sua criança usa sensor, pergunte à equipe sobre paracetamol em dose alta e sobre vitamina C.
E o sétimo, que não é princípio, é vigilância: em dia de doença, a criança não fica sozinha e não dorme a noite inteira sem uma medida. Duas pessoas revezando é o ideal.
Pra facilitar, a tabela de decisão que eu uso com as famílias:
| Situação | O que fazer |
|---|---|
| Doente, glicemia acima de 250, cetona negativa | Correção conforme o plano, água, medir glicemia em 2 h e cetona em 2 a 4 h |
| Doente, glicemia acima de 250, cetona de 0,6 a 2,9 | Insulina extra conforme o plano, água a cada 15 a 30 min, medir em 1 a 2 h, avisar a equipe |
| Doente, glicemia normal ou baixa, cetona positiva | Líquido com carboidrato + insulina conforme o plano. Se não segura líquido: hospital |
| Vomitou uma vez, segura líquido, cetona baixa | Pode tentar em casa, com medidas a cada hora e a equipe avisada |
| Vomitou duas vezes ou mais, ou não segura líquido por 2 horas | Hospital |
| Cetona 3,0 ou mais, ou “grande” na urina, em qualquer situação | Hospital |
| Respiração rápida, sonolência, confusão, dor de barriga forte | SAMU (192) ou o hospital mais próximo, agora |
Se a sua criança usa insulina rápida pela caneta, uma dica prática: em dia de doença, a coxa absorve mais devagar e o abdômen mais rápido. Pra correção de cetona, o abdômen é o melhor lugar. E se ela estiver desidratada, a absorção de qualquer lugar piora, mais um motivo pra insistir no líquido.
Cetona em quem usa bomba
Quem usa bomba de insulina tem uma vantagem e uma vulnerabilidade. A vantagem é ajustar a basal na hora, subindo a taxa em dia de doença com dois cliques. A vulnerabilidade é que, sem insulina de ação longa no corpo, qualquer falha na entrega vira cetona em poucas horas.
O raciocínio na bomba é: glicemia alta que não desce depois de uma correção pela bomba, ou cetona positiva, é falha de infusão até prova em contrário. Cateter dobrado, cânula que saiu, sangue no cateter, insulina que aqueceu no reservatório, bolha na tubulação, reservatório vazio, bomba pausada sem querer.
O que fazer:
- Aplicar a correção com caneta ou seringa, não pela bomba. Se a bomba não está entregando, corrigir por ela é corrigir no vazio.
- Trocar o conjunto completo: cateter, cânula, reservatório e insulina. Não vale só olhar e achar que está bom. Se está em dúvida, troca.
- Medir glicemia e cetona em 1 a 2 horas. Se a glicemia não caiu e a cetona não caiu, é hora de ligar pra equipe e considerar o hospital.
- Enquanto a cetona estiver presente, manter as medidas a cada 1 a 2 horas e a caneta à mão.
Toda família que usa bomba precisa ter caneta de insulina rápida, caneta de basal (pra emergência, com a dose combinada com a equipe) e fitas de cetona em casa, com validade em dia. Bomba que quebra na sexta à noite não é raridade.
Um alerta que a ISPAD faz e que eu reforço: nos sistemas automatizados (as bombas que ajustam a basal sozinhas pelo sensor), a bomba pode “achar” que está corrigindo enquanto o cateter está obstruído, e o sensor pode demorar a mostrar a subida. Ou seja, automação não dispensa a fita de cetona.
Quando ir pro hospital
Esta é a seção que eu queria que você memorizasse. Vá pro pronto-socorro (ou ligue 192) se:
- Vômito que se repete, ou a criança não segura líquido por mais de 2 horas.
- Cetona no sangue de 3,0 mmol/L ou mais, ou “grande” na urina, em qualquer situação.
- Cetona que não cai depois de duas rodadas de insulina extra e líquido, mesmo que ainda esteja abaixo de 3.
- Respiração rápida, profunda ou com esforço.
- Sonolência, dificuldade de acordar, confusão, fala enrolada.
- Dor de barriga forte.
- Sinais de desidratação: boca muito seca, sem lágrima, sem xixi por 6 horas ou mais, olhos fundos, moleira funda no bebê.
- Bebê ou criança menor de 2 anos com cetona positiva e qualquer sintoma. Em criança muito pequena tudo acontece mais rápido e a margem é menor.
- Você não tem insulina, não tem fita, não consegue falar com a equipe ou simplesmente está com medo e sozinha. Ir pro hospital “à toa” é um resultado bom. Ficar em casa demais não é.
Na chegada, diga nas primeiras frases: “Minha filha tem diabetes tipo 1, está com cetona de tanto e glicemia de tanto, e eu acho que pode ser cetoacidose.” Isso muda a triagem. Cetoacidose na triagem é classificação de urgência alta, e a família que diz isso com clareza é atendida antes. Leve o glicosímetro, o medidor de cetona, a insulina que ela usa e, se tiver, o plano de dia de doença por escrito. Se a criança usa bomba, leve a bomba ligada (a equipe vai decidir se mantém ou não) e a caneta.
No caminho, mantenha a basal em dia e não aplique doses extras por conta própria além do que o plano já dizia. O tratamento da cetoacidose no hospital é feito com insulina na veia e soro, numa velocidade calculada, e insulina demais antes de chegar pode atrapalhar mais do que ajudar.
Não dê nada pela boca se ela estiver vomitando muito ou sonolenta. E se estiver em dúvida entre dirigir e chamar o SAMU, com criança sonolenta ou respirando rápido, chame o SAMU: é possível que o atendimento precise começar antes de chegar ao hospital.
O que acontece no hospital
Saber o que esperar tira metade do medo. O tratamento da cetoacidose é protocolo, é bem definido, e a criança que chega consciente costuma sair bem em 24 a 48 horas.
Primeiro, a avaliação. Glicemia, gasometria (o exame que mede o pH e o bicarbonato), eletrólitos (sódio, potássio), cetona no sangue, e a procura pela causa (infecção, principalmente). É aqui que se define se é cetoacidose leve, moderada ou grave, e se a criança fica na enfermaria ou vai pra UTI.
Depois, o soro. A reposição de líquido vem antes da insulina. A criança está desidratada, e o soro começa a corrigir a glicemia e a acidose antes mesmo de qualquer insulina. A velocidade é calculada pelo peso e pelo grau de desidratação, e é deliberadamente lenta: a ISPAD e a SBD orientam repor o déficit ao longo de 24 a 48 horas, não de uma vez. A equipe não está demorando: a velocidade lenta é o que protege o cérebro.
A insulina na veia. Entra em geral uma hora depois do soro, em infusão contínua, numa dose pequena e constante. A meta não é derrubar a glicemia rápido, é fechar a produção de cetona. A glicemia deve cair devagar (em torno de 40 a 90 mg/dL por hora), e quando chega perto de 250 a 300, o soro passa a ter glicose, pra que a insulina continue correndo e limpando a cetona sem causar hipoglicemia. Ver glicose no soro de uma criança com diabetes assusta muita mãe. É o esperado.
O potássio. Na cetoacidose o corpo perde muito potássio, e a insulina empurra o que sobrou pra dentro das células. Por isso o potássio é reposto no soro desde cedo e medido de novo a cada poucas horas. Alterações de potássio afetam o coração; é uma das razões da monitorização.
Monitorização. Glicemia de hora em hora, gasometria e eletrólitos a cada 2 a 4 horas, sinais vitais, nível de consciência. Em UTI, monitor cardíaco. É intenso, e é o certo.
A transição. Quando o pH normaliza, a cetona cai e a criança está comendo, a insulina passa da veia pra caneta ou pra bomba. A primeira dose subcutânea é dada antes de desligar a infusão, porque a insulina da veia acaba em minutos.
Sobre o edema cerebral, que é a complicação mais temida: ele acontece em menos de 1% das cetoacidoses em crianças, é mais comum em quem chega muito grave, muito desidratado, muito pequeno ou no primeiro diagnóstico, e é o motivo de toda a cautela com a velocidade do soro e da insulina. Os sinais que a equipe vigia são dor de cabeça que piora, queda da frequência cardíaca, mudança de comportamento ou de consciência. Se você notar qualquer um deles no seu filho durante a internação, chame na hora. Mãe é a melhor observadora de mudança de comportamento que existe.
E uma coisa que eu peço: não brigue com a equipe por “demorar a dar insulina”. Eu entendo o instinto, eu sou mãe. Mas o soro primeiro e a insulina depois, em dose baixa, é o protocolo do mundo inteiro, e é o que protege o cérebro da sua criança.
Depois da cetoacidose
A alta é o começo de outra parte do trabalho, que quase ninguém orienta.
Descubra a causa. Toda cetoacidose tem uma explicação, e ela precisa ser nomeada sem culpa: uma virose, um cateter obstruído, uma caneta vazia, uma dose que ficou pra trás, um plano de dia de doença que não existia. Sem a causa, não tem prevenção. Com a causa, a chance de repetir cai muito.
Revise o plano de dia de doença com a equipe, ou faça um, se não tinha. Ele precisa ter, por escrito: quando medir cetona, quanto de insulina extra pra cada faixa de cetona, de quanto em quanto tempo medir, quando ligar e pra quem, e quando ir pro hospital. Um plano de uma página, na porta da geladeira e na mochila.
Confira o estoque. Fitas de cetona (as duas, se possível), aparelho que lê cetona, caneta rápida e basal com validade em dia, insulina reserva na geladeira, glucagon (se estiver vencido, troque). Quem usa bomba: conjuntos de infusão reserva e caneta.
Espere um período de glicemia instável. Depois de uma cetoacidose, a sensibilidade à insulina muda por alguns dias, a criança está comendo diferente, o corpo está se recuperando. Nessa semana, meça mais e converse com a equipe antes de tirar conclusão sobre as doses.
Cuide do que ficou por dentro. Cetoacidose é traumática pra criança e pros pais. Culpa é a emoção mais comum que eu vejo depois, e ela raramente é justa. Crianças pequenas podem ficar mais grudadas ou com medo do hospital; adolescentes podem se fechar. Se a família não consegue voltar ao normal em algumas semanas, é motivo legítimo pra procurar apoio psicológico. E não é fraqueza.
Uma cetoacidose bem cuidada não deixa sequela. A maioria das crianças volta à rotina em uma semana, e a hemoglobina glicada dos meses seguintes é o que vai mostrar se o plano funcionou. O que fica, e o que deve ficar, é a família mais preparada.
Adolescente e omissão de insulina
Eu não podia fechar este texto sem falar disso, porque na adolescência a causa mais comum de cetoacidose repetida não é doença nem bomba: é insulina que não foi aplicada de propósito.
Isso acontece por motivos diferentes, e vale entender cada um antes de reagir. Tem o adolescente que esquece porque a rotina virou dele e ele ainda não deu conta. Tem o que omite porque está exausto do diabetes e a omissão é a única forma de “folga” que ele encontrou. Tem o que omite pra não ganhar peso, porque descobriu que sem insulina o corpo emagrece: é um transtorno alimentar específico do diabetes tipo 1 (a chamada diabulimia), e pede tratamento com equipe de saúde mental, não bronca. E tem o que esconde a glicemia alta porque todo número alto vira briga em casa.
Sinais que merecem atenção: hemoglobina glicada subindo sem explicação, cetoacidoses repetidas, insulina que “sobra” na geladeira, perda de peso, um sensor que “não estava funcionando”, medidas que desapareceram do glicosímetro.
O que funciona, pelo que eu vejo nas famílias que acompanho e pelo que a literatura mostra: transformar número em informação, não em julgamento (“320, o que a gente faz?” em vez de “320 de novo?”); dividir a responsabilidade aos poucos em vez de entregar tudo de uma vez aos 13 anos; supervisão discreta da basal, que é a dose que não pode faltar; e, quando há sinais de omissão intencional, envolver a equipe e um profissional de saúde mental cedo, sem transformar isso em castigo. Eu escrevi mais sobre autonomia do adolescente no guia de hipoglicemia, e o raciocínio é o mesmo.
Por onde continuar
Cetona e dia de doença são o assunto em que mais família chega achando que “não vai acontecer comigo” e sai com fita de cetona na mochila. A Trilha DM1 é gratuita, tem cinco módulos (recém-diagnosticado, entendendo a doença, insulina, alimentação, qualidade de vida) e organiza tudo isso em ordem, com aulas em vídeo.
Começar a Trilha DM1 (gratuita)Se você quer montar o plano de dia de doença da sua criança com alguém que vive isso, revisar o que aconteceu numa cetoacidose e organizar as perguntas pra levar ao endocrinologista, eu atendo online famílias de todo o Brasil no acompanhamento nutricional em diabetes.
Um abraço. Fita de cetona na mochila, e vai dar certo.
Perguntas frequentes
É a complicação aguda mais grave do diabetes tipo 1: falta insulina, o corpo passa a queimar gordura e produz cetonas em excesso, que deixam o sangue ácido. Vem junto com desidratação e perda de sais. Os sinais são sede, xixi em excesso, enjoo, vômito, dor de barriga, hálito adocicado, respiração rápida e sonolência. É tratada no hospital com soro e insulina na veia.
Quando a glicemia fica acima de 250 mg/dL por mais de duas horas ou não desce depois de uma correção, em qualquer glicemia acima de 300, em todo dia de doença (febre, virose, vômito, diarreia), sempre que houver enjoo, vômito ou dor de barriga, e, em quem usa bomba, em toda glicemia alta sem explicação.
No sangue, abaixo de 0,6 mmol/L é normal; de 0,6 a 1,4 pede insulina extra conforme o plano e líquido; de 1,5 a 2,9 é risco alto e pede contato com a equipe; 3,0 ou mais é cetoacidose provável e pede pronto-socorro. Na urina, “moderada” ou “grande” corresponde às faixas altas, com a ressalva de que a fita de urina mostra o passado, não o presente.
Medir glicemia e cetona antes de qualquer outra coisa. Vômito em criança com diabetes tipo 1 é cetona até prova em contrário. Se a cetona está baixa e ela segura líquido, dá pra cuidar em casa com medidas de hora em hora e a equipe avisada. Se vomitou mais de uma vez, não segura líquido por 2 horas ou a cetona está alta, é hospital.
Não. Nunca. A criança doente precisa de mais insulina, não de menos, porque os hormônios do estresse sobem a glicemia e atrapalham a insulina. A basal continua sempre, o bolus de correção continua, e o bolus de refeição acompanha o que ela realmente comeu. Se ela não come, ofereça carboidrato líquido e dê a insulina pra ele. Suspender insulina em dia de doença é a causa mais comum de cetoacidose evitável.
Pode ser. Quando a criança está sem comer ou vomitando, o corpo queima gordura por falta de glicose e produz cetona mesmo com glicemia normal ou baixa (cetona de jejum). O tratamento é carboidrato junto com insulina, e hospital se ela não segura líquido. Existe também a cetoacidose com glicemia quase normal, mais comum em adultos que usam inibidores de SGLT2. Quem decide é a fita de cetona, não o glicosímetro.
Em geral de 1 a 3 dias. O tratamento com soro e insulina na veia costuma corrigir a acidose em 12 a 24 horas, e a alta vem quando a criança está comendo, sem cetona significativa e com a insulina de volta na caneta ou na bomba. Casos graves, com edema cerebral ou infecção associada, ficam mais tempo, geralmente em UTI.
Na grande maioria dos casos, não. Tratada a tempo, a criança se recupera por completo em poucos dias. A complicação temida é o edema cerebral, que acontece em menos de 1% dos casos, mais em crianças pequenas e em quadros muito graves, e é o motivo de o tratamento no hospital ser feito devagar e com monitorização intensa.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz da SBD, edição 2026. Capítulos “Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética” (https://diretriz.diabetes.org.br/) e “Peculiaridades do tratamento da criança com DM1” (https://diretriz.diabetes.org.br/peculiaridades-do-tratamento-da-crianca-com-dm1/).
- Glaser N, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Diabetic ketoacidosis and hyperglycemic hyperosmolar state. Pediatric Diabetes. 2022;23(7):835-856.
- Laffel LM, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Sick day management in children and adolescents with diabetes. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1229-1242.
- Sherr JL, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Diabetes technologies: insulin delivery. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1406-1431.
- American Diabetes Association. Children and Adolescents: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). https://doi.org/10.2337/dc26-S014
- American Diabetes Association. Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). https://doi.org/10.2337/dc26-S006
- Ramos TTO, et al. Cetoacidose diabética em crianças e adolescentes com diabetes mellitus tipo 1 e fatores de risco associados. Cogitare Enfermagem. 2022;27. https://doi.org/10.5380/ce.v27i0.82388
- Prevalência de cetoacidose diabética na apresentação inicial de diabetes mellitus tipo 1 em crianças e adolescentes entre 2018 e 2021 em um serviço de referência. Arquivos Catarinenses de Medicina.
Texto escrito por Christine Rolke, nutricionista (CRN 24102380), mestre em Imunologia, educadora em diabetes e mãe de criança com diabetes tipo 1. Conheça a minha história.
Revisado em 16/09/2026. Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação da equipe que acompanha a sua criança. Doses de insulina, inclusive a insulina extra pra cetona, são sempre individuais e definidas pela equipe, no plano de dia de doença.