No diabetes tipo 1 o pâncreas parou de produzir insulina, então ela precisa entrar de fora, todos os dias, pela vida inteira, imitando o que o corpo fazia sozinho: uma quantidade pequena e constante (a basal) e uma dose a cada refeição ou correção (o bolus). Existem insulinas de ação ultrarrápida, rápida, intermediária (NPH) e longa, e a diferença entre elas é o tempo em que começam, atingem o pico e param de agir. Este guia explica cada tipo, como o esquema basal e bolus funciona, como se calcula uma dose, o que muda na caneta e na bomba, e o que o SUS fornece hoje.
Quando a Livia foi diagnosticada, com 13 meses, a primeira coisa que eu tive que aprender, ainda no hospital, foi aplicar insulina. Antes de entender o que era diabetes tipo 1 de verdade, antes de saber contar carboidrato, antes de qualquer coisa. E eu lembro da sensação de sair de lá com duas canetas, uma tabelinha e a certeza de que eu não sabia o que estava fazendo.
Hoje eu ensino insulina pra mães, pra alunos de Medicina e pra profissionais de saúde, e o que eu percebo é que a maioria das famílias aprende a aplicar sem nunca ter aprendido como cada insulina funciona. Aí a pessoa faz contagem de carboidrato certinha, aplica a dose certinha, e a glicemia vai pra 300 duas horas depois. E ela não entende por quê. Quase sempre a resposta está no perfil de ação da insulina: quando começa, quando faz pico, quanto tempo dura. Se você aprender contagem de carboidrato e não souber isso, você se perde.
Eu sou a Christine, nutricionista, educadora em diabetes, professora de Medicina e mãe da Livia. Este é o capítulo de insulina das minhas aulas, escrito pra você ler com calma. Se você ainda está nos primeiros dias, comece pelo guia do diagnóstico e volte aqui depois.
O que a insulina faz no corpo
Vamos começar do começo, porque tudo o que vem depois depende disso.
A insulina é um hormônio produzido pelas células beta do pâncreas. A função dela é abrir a porta da célula pra glicose entrar e virar energia. Sem insulina, a glicose fica presa no sangue: a glicemia sobe e, ao mesmo tempo, as células ficam sem combustível. É por isso que a criança recém-diagnosticada come muito, emagrece e ainda assim está com 400 de glicemia. Tem açúcar sobrando do lado de fora e faltando do lado de dentro.
Todo mundo usa insulina o dia inteiro. A diferença é que quem não tem diabetes usa a própria, endógena, e quem tem diabetes tipo 1 usa a de fora, exógena, porque o sistema imune destruiu as células beta. Eu faço questão de falar isso porque escuto muito “não vou aplicar insulina, não estou tão doente assim”, ou pior, a criança ouvindo em casa que insulina é castigo, que se comer doce “vai ter que tomar mais injeção”. Insulina é vida. A criança com diabetes tipo 1 não aplica insulina porque está pior; ela aplica porque o corpo dela precisa do mesmo hormônio que o corpo de todo mundo, só que por outro caminho. A gente tem que cuidar muito da nossa fala nesse ponto, porque a mensagem que a criança leva pra adolescência vem daí.
E tem um detalhe que explica quase tudo o que vem a seguir: o pâncreas de quem não tem diabetes não solta insulina de um jeito só. Ele solta uma quantidade pequena e constante o tempo inteiro, mesmo em jejum, mesmo dormindo, pra segurar a glicose que o fígado produz. E solta uma quantidade grande e rápida toda vez que a pessoa come. O tratamento do diabetes tipo 1 tenta imitar exatamente esse padrão. É disso que trata a seção de basal e bolus. Mas antes a gente precisa conhecer as ferramentas.
Os tipos de insulina: início, pico e duração
Primeira coisa que a gente precisa saber sobre qualquer insulina: com quanto tempo ela começa a agir, quando faz o pico de ação e quanto tempo dura. Isso vale pra decidir quando aplicar antes de comer, quanto tempo esperar pra corrigir de novo, por que a glicemia cai de madrugada, tudo. A tabela abaixo é a que eu uso em aula. Os tempos são aproximados (ISPAD 2022 e bulas) e variam de pessoa pra pessoa, com o local de aplicação, a dose e a temperatura.
| Insulina | Exemplos | Começa a agir | Pico | Duração |
|---|---|---|---|---|
| Ultrarrápida (análoga) | Fiasp (asparte mais rápida), Lyumjev (lispro mais rápida) | 5 a 15 min | 1 a 2 h | 3 a 5 h |
| Rápida (análoga) | Humalog (lispro), NovoRapid (asparte), Apidra (glulisina) | 15 a 30 min | 1 a 3 h | 3 a 5 h |
| Regular (humana) | Humulin R, Novolin R | 30 a 60 min | 2 a 4 h | 5 a 8 h |
| Intermediária (humana) | NPH (Humulin N, Novolin N) | 2 a 4 h | 4 a 12 h | 12 a 24 h |
| Longa (análoga) | Lantus e Basaglar (glargina U100), Levemir (detemir) | 1 a 4 h | pouco ou nenhum pico | até 24 h (detemir depende da dose, 12 a 24 h) |
| Ultralonga (análoga) | Tresiba (degludeca), Toujeo (glargina U300) | 1 a 6 h | sem pico | mais de 24 h (degludeca passa de 42 h) |
Alguns pontos dessa tabela que fazem diferença no dia a dia.
Análoga e humana: a diferença está na molécula. A insulina humana (regular e NPH) tem exatamente a molécula que o nosso corpo produz, feita em laboratório. As análogas têm uma pequena mudança na molécula pra agir mais rápido (as de bolus) ou mais devagar e sem pico (as de basal). O que as análogas fazem melhor é imitar o pâncreas: a rápida chega perto do tempo da refeição, e a longa não tem o pico que a NPH tem. Menos pico significa menos hipoglicemia, principalmente à noite. É por isso que as diretrizes (ISPAD, SBD, ADA) recomendam análogos como primeira escolha pra criança quando estão disponíveis.
Mas dá pra ter bom controle com NPH e regular. Eu digo isso porque muita família só tem acesso a elas e sai dos grupos achando que está condenada. Não está. É uma questão de estudar a insulina. A NPH tem um pico entre 4 e 12 horas, então quem aplica de manhã precisa saber que o pico cai no começo da tarde, e quem aplica à noite precisa saber que ele cai de madrugada. Muita gente consegue um controle melhor com a NPH usando doses menores em mais aplicações (duas ou três por dia) do que uma dose grande, justamente pra diminuir o tamanho do pico. A regular começa em meia hora e dura até 8 horas, então ela precisa ser aplicada bem antes de comer e ainda está agindo na hora do lanche seguinte. Isso é conhecimento, não sorte.
“Rápida” não é “instantânea”. Uma análoga rápida como Humalog ou NovoRapid demora 15 a 30 minutos pra começar e faz pico só depois de uma hora. O carboidrato de um pão começa a subir a glicemia em 10, 15 minutos. Se a insulina for aplicada na hora de comer, o carboidrato ganha a corrida. É daí que vem o tempo de espera, que eu explico mais adiante. As ultrarrápidas (Fiasp e Lyumjev) encurtam essa diferença, mas não a zeram; escrevi um texto só sobre a Lyumjev e o que ela muda pra criança.
A duração é o que mais gente esquece. Uma análoga rápida ainda está agindo 3, 4 horas depois de aplicada. Se a glicemia está alta 2 horas depois do almoço e a família corrige de novo com a dose cheia, tem duas doses agindo ao mesmo tempo: é o empilhamento de insulina, uma das causas mais comuns de hipoglicemia grave que eu vejo. A bomba e os aplicativos calculam a “insulina ativa” justamente pra descontar o que ainda está no corpo. Na caneta, quem faz essa conta é a família, com a cabeça.
Basal e bolus: imitando o pâncreas
Agora dá pra voltar àquele padrão do pâncreas saudável: um pouco de insulina o tempo todo, e uma dose grande a cada refeição.
A basal é a insulina de fundo. Ela cobre a glicose que o fígado produz o dia inteiro, independente de comida. É a dose que segura a glicemia estável em jejum e de madrugada. Na caneta, a basal é a insulina longa (glargina, detemir, degludeca) ou a NPH. Na bomba, é a rápida sendo infundida em microdoses a cada poucos minutos, com uma taxa programada pra cada hora do dia.
O bolus é a insulina da refeição e da correção. É a rápida ou ultrarrápida, aplicada antes de comer (bolus de refeição, calculado pelo carboidrato) e sempre que a glicemia está acima da meta (bolus de correção, calculado pelo fator de sensibilidade). Os dois costumam ser somados numa aplicação só.
O esquema que junta os dois se chama basal-bolus, ou múltiplas doses diárias (MDI, na sigla em inglês), quando é com caneta. É o padrão recomendado pra criança e adolescente com diabetes tipo 1 pela ISPAD 2022, pela SBD 2026 e pela ADA 2026, junto com a bomba de insulina, que é o mesmo conceito com outra ferramenta. O esquema antigo de duas aplicações por dia misturando NPH e regular ainda existe, e às vezes é o possível pra uma família, mas ele obriga a criança a comer em horário fixo pra “alimentar a insulina”, e não o contrário.
Como a dose total se divide? Nas diretrizes, a basal costuma ficar entre 30 e 50% da dose total do dia quando se usa análogos, e o resto vai pros bolus. Em criança pequena e na bomba, a fatia da basal costuma ser menor que isso, porque criança pequena come muitas vezes e o bolus acaba pesando mais. Um erro clássico é a basal alta demais “segurando” a glicemia entre as refeições, o que obriga a criança a comer pra não ter hipoglicemia. Basal boa é aquela que, se a criança pular uma refeição, a glicemia fica onde estava.
E quanto de insulina uma criança usa por dia? Depende da idade, do peso, de quanto pâncreas ainda funciona, da puberdade, da atividade física. A ISPAD dá faixas de referência que ajudam a família a entender se está no esperado: na lua de mel, menos de 0,5 unidade por quilo por dia; criança antes da puberdade, algo entre 0,7 e 1,0; na puberdade, 1,0 a 1,2, podendo passar de 1,5 nos anos de estirão. Esses números são pra você entender o mapa, não pra calcular sozinha. Quem define e ajusta a dose da sua criança é a equipe que acompanha ela, com os dados de glicemia na mão.

Como se calcula a dose: I:C e fator de sensibilidade
O bolus é a parte da insulina que a família calcula várias vezes por dia. Ele tem dois pedaços, e cada um usa um número que a equipe define pra cada criança.
Relação insulina/carboidrato (I:C). É quantos gramas de carboidrato uma unidade de insulina cobre. Uma I:C de 1:15 quer dizer que 1 unidade cobre 15 gramas de carboidrato. Se a refeição tem 45 g, o bolus de refeição é 3 unidades. Criança pequena costuma ter I:C alta (1:25, 1:30, 1:40, uma unidade cobre muito carboidrato), e adolescente costuma ter I:C baixa (1:8, 1:5). É comum a I:C ser diferente no café da manhã, que é quando a resistência à insulina é maior, e no resto do dia.
Fator de sensibilidade (FS), ou fator de correção. É quantos mg/dL uma unidade de insulina abaixa a glicemia. Um FS de 50 quer dizer que 1 unidade derruba 50 mg/dL. Se a glicemia está em 250 e a meta é 150, a diferença é 100, e o bolus de correção é 2 unidades. Criança pequena tem FS alto (uma unidade pode abaixar 150, 200 mg/dL), o que exige muito cuidado com meia unidade a mais ou a menos.
Na prática, os dois somam. Almoço de 60 g de carboidrato com I:C 1:15 (4 unidades) e glicemia em 250 com FS 50 e meta 150 (2 unidades): bolus de 6 unidades. Se houvesse insulina ativa de uma correção feita 2 horas antes, uma parte seria descontada.
De onde saem esses números? A equipe costuma começar por fórmulas que usam a dose total do dia: a regra do 500 pra I:C (500 dividido pela dose total; em criança, o divisor fica entre 300 e 500) e a regra do 1800 pro FS (1800 dividido pela dose total). São pontos de partida. A partir daí, o ajuste é feito olhando o que acontece: se a glicemia 2 horas depois de comer está sempre alta com a contagem certa, a I:C precisa cobrir mais; se a correção sempre leva pra hipoglicemia, o FS está subestimado. Criança costuma ser mais sensível do que a fórmula prevê. Por isso eu insisto: registre, leve pra consulta, e ajuste com a equipe. Não ajuste no impulso, depois de um dia ruim.
O passo a passo de contar o carboidrato do prato, com a tabela brasileira e exemplos resolvidos, está no guia de contagem de carboidratos. E se você quer uma ajuda pra fazer essa conta no celular, com a I:C e o FS da sua criança e o desconto da insulina ativa, o GlicemIA é o assistente que eu criei pra isso, com a regra de nunca decidir dose por você.
O tempo de espera antes de comer
Há quanto tempo eu devo aplicar a insulina antes de comer? Essa é uma das dúvidas mais frequentes que eu recebo, e a resposta depende de três coisas: qual insulina, qual glicemia, e se tem sensor mostrando tendência.
Primeiro, qual insulina. A gente viu na tabela: análoga rápida começa a agir em 15 a 30 minutos, regular em 30 a 60, ultrarrápida em 5 a 15. O tempo de espera existe pra insulina começar a agir junto com o carboidrato, não depois dele. Pra uma análoga rápida, a referência das diretrizes é aplicar 15 a 20 minutos antes de comer. Pra regular, 30 minutos. Pra ultrarrápida, na hora de sentar à mesa, ou até logo depois de começar, quando a criança é daquelas que não se sabe se vai comer.
Segundo, qual glicemia. Se a criança está em 90 antes do almoço, esperar 20 minutos com a insulina agindo pode levar a uma hipoglicemia antes da comida chegar. Nesse caso, a espera é menor ou não existe. Se está em 250, o contrário: esperar mais (25, 30 minutos) dá tempo da insulina começar a derrubar antes de o carboidrato empurrar pra cima. Muita família que “faz tudo certo” e vê 300 depois de comer está errando só nesse ponto.
Terceiro, tendência. Se o sensor mostra seta pra baixo, a glicemia daqui a 15 minutos vai ser menor do que a de agora; se mostra seta pra cima, maior. A espera e às vezes a dose mudam com isso, e o jeito de fazer é combinado com a equipe.
Em criança pequena tem um problema real: ela pode não comer o que a gente planejou. Aplicar 20 minutos antes e a criança comer metade é receita pra hipoglicemia. É por isso que, em bebês e crianças pequenas, muita equipe autoriza aplicar logo depois de começar a comer, quando já dá pra ver o que vai entrar, ou dividir o bolus. É uma escolha entre dois riscos, e ela é individual.
Caneta, seringa, agulha e onde aplicar
A insulina vai pro tecido subcutâneo, a camada de gordura logo abaixo da pele. Não é no músculo. Isso importa porque no músculo a absorção é mais rápida e imprevisível, e criança tem pouca gordura.
A agulha. A recomendação atual (FITTER 2016, ISPAD 2022) é agulha de 4 mm pra caneta, em qualquer idade, inclusive adultos, aplicada a 90 graus, sem precisar fazer prega. Agulha maior não aplica “melhor”; só aumenta a chance de pegar músculo. A prega na pele fica pra criança muito magra ou muito pequena, quando 4 mm ainda podem chegar no músculo, e é a equipe que orienta. Seringa, quando é o que a família tem, usa agulha de 6 mm com prega. E agulha é de uso único: reutilizar cega a ponta, dói mais e aumenta a lipo-hipertrofia.
O rodízio. Sempre, sempre faça rodízio de local. O motivo é a lipo-hipertrofia: quando a insulina cai muitas vezes no mesmo ponto, o tecido ali engrossa, forma um caroço, e esse caroço absorve insulina mal e de forma imprevisível. A dose que “não faz efeito” numa semana e causa hipoglicemia na outra muitas vezes é isso. O rodízio é entre regiões (barriga, braço, coxa, glúteo) e dentro de cada região, deixando pelo menos um dedo de distância entre uma aplicação e outra e evitando a mesma região dias seguidos.
Onde aplicar depende do que você quer. As regiões absorvem em velocidades diferentes: a barriga é a mais rápida, depois o braço, depois a coxa, e o glúteo é o mais lento. Então a barriga é um bom lugar pro bolus da refeição, quando a gente quer a insulina agindo logo, e a coxa e o glúteo são bons lugares pra basal, que a gente quer lenta e constante. E tem uma regra que evita muita hipoglicemia: não aplique no local que vai fazer exercício. Se a criança vai jogar futebol, a coxa está fora, porque o fluxo de sangue no músculo aumenta, a absorção acelera e a insulina que era pra durar 4 horas chega toda em 1.
Não precisa de álcool na pele limpa, e se usar, esperar secar; álcool úmido arde. Depois de apertar o botão da caneta até o fim, contar até 10 antes de tirar a agulha, pra não vazar insulina. Se sair uma gotinha ou um pouco de sangue, é normal; não repita a dose.
Como guardar a insulina
Insulina é proteína, e proteína estraga com calor e com frio extremo. Insulina que congelou não serve mais, mesmo depois de descongelar; insulina que ficou no carro no sol perdeu potência, e a família vai achar que a dose está errada.
As regras que valem pra todas: a insulina fechada, que ainda não começou a ser usada, fica na geladeira, entre 2 e 8 °C, longe do congelador e não na porta, onde a temperatura oscila. A caneta ou frasco em uso pode ficar em temperatura ambiente, abaixo de 30 °C, por até 28 dias na maioria das insulinas (a degludeca aguenta 56 dias, a detemir e a glargina U300, 42; confira a bula da sua). Depois disso, mesmo que ainda tenha insulina dentro, descarta, porque a potência cai. Insulina em uso não precisa voltar pra geladeira, e aplicar insulina gelada arde mais.
Pra sair de casa, viagem e escola, existem estojos térmicos que não precisam de gelo. Na praia e no carro, a insulina fica na bolsa térmica e nunca em contato direto com o gelo. Se a insulina mudou de aspecto (a rápida e a longa são transparentes; se ficaram turvas ou com grumos, descarta; a NPH é naturalmente leitosa e precisa ser homogeneizada rolando a caneta entre as mãos, umas 20 vezes, antes de aplicar).
E um detalhe que eu vejo passar batido: a criança em glicemia alta “sem motivo” há dois dias, cetona começando a aparecer, e o problema era a caneta que ficou no calor. Quando a glicemia não responde à correção, trocar a caneta é uma das primeiras coisas a fazer, junto com medir cetona. O guia de cetoacidose explica o resto.
Bomba de insulina e sistemas automatizados
A bomba de insulina, ou sistema de infusão contínua, é um aparelho pequeno que fica preso ao corpo e infunde insulina rápida (ou ultrarrápida) o dia inteiro por uma cânula fina debaixo da pele, trocada a cada 2 ou 3 dias. Não existe insulina longa na bomba: a basal é a própria rápida em microdoses a cada poucos minutos, com uma taxa programada pra cada hora do dia, e o bolus é dado pelo aparelho, que já calcula a dose com a I:C, o FS e a insulina ativa que estão programados nele.
O que a bomba faz melhor que a caneta: basal diferente pra cada hora do dia (mais de madrugada, quando o fenômeno do alvorecer sobe a glicemia; menos na hora da educação física), doses muito pequenas (décimos de unidade, o que faz diferença enorme em criança pequena), basal temporária pra exercício ou doença, bolus estendido pra refeição gordurosa, e o cálculo da insulina ativa, que evita o empilhamento. As diretrizes recomendam a bomba pra criança de qualquer idade, e os estudos mostram melhora de hemoglobina glicada e redução de hipoglicemia grave quando a família é bem treinada.
O que ela exige: a bomba não pensa sozinha. Ela infunde o que foi programado, e se a cânula dobra, o cateter vaza ou o adesivo solta, a criança fica sem nenhuma insulina no corpo em poucas horas, porque não tem basal longa de reserva. Por isso, quem usa bomba mede cetona diante de qualquer glicemia alta inexplicada e troca o conjunto se ela não responder à correção. A lipo-hipertrofia também acontece na bomba, e o rodízio da cânula vale igual.
Sistemas híbridos de alça fechada. Os sistemas mais novos ligam a bomba ao sensor de glicose e usam um algoritmo pra ajustar a basal (e, em alguns, dar pequenas correções automáticas) a cada 5 minutos, conforme a glicemia. Eles ainda precisam que a família informe o carboidrato da refeição, por isso “híbridos”. No Brasil, o sistema disponível hoje é o MiniMed 780G (Medtronic), liberado pela Anvisa a partir dos 7 anos; outros sistemas (Tandem Control-IQ, Omnipod 5) ainda não chegaram aqui. Os estudos em crianças mostram mais tempo no alvo, principalmente à noite, e menos carga pra família. Não é piloto automático: contagem de carboidrato, cetona, troca de conjunto e sensor bem calibrado continuam sendo trabalho de quem cuida. Mas é a maior mudança no tratamento do diabetes tipo 1 desde os análogos, e a tendência é essa tecnologia ficar mais acessível.
A bomba é uma decisão de família e equipe, não de urgência. Muita gente começa na caneta, aprende contagem e perfil de insulina, e vai pra bomba quando faz sentido. Quem sabe manejar bem a caneta maneja bem a bomba; quem vai pra bomba sem entender a insulina troca um problema por outro com mais botões.

Sensor de glicose: o que ele muda na insulina
Sensor merece um texto só dele, e ele vai existir. Aqui eu quero falar só de uma coisa: o que o sensor muda nas decisões de insulina.
Na ponta de dedo, a família tem 4, 6, 8 números por dia, e cada um é uma foto. O sensor dá uma leitura a cada 1 a 5 minutos, e cada uma vem com uma seta de tendência. Isso muda o jeito de usar a insulina de três formas.
A primeira é a tendência na hora do bolus. Uma glicemia de 150 com seta pra cima e uma de 150 com seta pra baixo não pedem a mesma dose nem o mesmo tempo de espera. As diretrizes descrevem ajustes de dose pela seta, e a equipe define como fazer pra cada criança.
A segunda é a basal. Com o sensor, dá pra ver a madrugada inteira. Se a glicemia sobe das 3h às 7h todos os dias, é o fenômeno do alvorecer, e a basal daquele horário (na bomba) ou o horário da longa (na caneta) podem ser ajustados. Se cai entre 1h e 4h, a basal está alta. Antes do sensor, a família só via o resultado ao acordar, e adivinhava.
A terceira é a métrica que orienta o ajuste. Hoje a meta principal não é a glicada sozinha, é o tempo no alvo: pelo menos 70% do tempo entre 70 e 180 mg/dL, menos de 4% abaixo de 70, e as diretrizes de 2026 já falam em 70 a 140 pra quem consegue. Cada ajuste de I:C, FS e basal é feito olhando esse relatório, e não um número isolado. Eu explico os relatórios e as metas na tabela de glicemia.
O sensor também é o que faz os sistemas automatizados funcionarem, e é o alarme de baixa que deixa muita mãe dormir de novo. Mas ele lê o líquido entre as células, não o sangue, e atrasa alguns minutos em relação à ponta de dedo, principalmente quando a glicemia muda rápido. Toda decisão grande de insulina em glicemia caindo ou subindo rápido, ou quando o número não bate com o que a criança está sentindo, ainda confere na ponta do dedo.
Por que a dose muda: lua de mel, crescimento, puberdade
A dose que funcionou no mês passado não é a dose deste mês, e isso não é erro de ninguém. Insulina no diabetes tipo 1 é um alvo que se move, e entender por que ele se move poupa a família de muita culpa.
Lua de mel. Nas semanas seguintes ao diagnóstico, quando a insulina de fora tira a glicose alta de cima do pâncreas, as células beta que sobraram voltam a trabalhar um pouco. A necessidade de insulina cai, às vezes muito, às vezes pra quase zero. Isso é a remissão parcial, a lua de mel. Ela dura meses, às vezes mais de um ano, e termina de forma gradual. A dose vai subindo de novo conforme as células param, e isso não significa que a criança “piorou” nem que a família fez algo errado. Também não é hora de suspender a insulina: manter uma dose pequena durante a lua de mel protege o que resta das células beta por mais tempo. Eu falo disso com detalhe no guia do diagnóstico.
Crescimento. Criança cresce, ganha peso, e a dose por quilo se mantém enquanto a dose total sobe. Um bebê que usava 2 unidades por dia vira uma criança de 6 anos que usa 12. Ver a dose aumentar é o esperado.
Puberdade. Os hormônios da puberdade, principalmente o hormônio do crescimento, causam resistência à insulina. A dose por quilo sobe pra 1,0, 1,2, às vezes mais de 1,5 unidade por quilo por dia, a glicemia da madrugada fica mais difícil e o café da manhã pede mais insulina por grama de carboidrato. Isso, junto com a autonomia crescente e a vontade de não ser diferente, faz da adolescência a fase mais difícil do controle. Depois do estirão, a necessidade volta a cair, e quem não ajusta pra baixo começa a ter hipoglicemia.
O resto. Doença e febre aumentam a necessidade (nunca suspenda insulina em dia de doença; veja o guia de cetoacidose). Exercício diminui, às vezes por 12 a 24 horas depois. Menstruação altera. Estresse, sono ruim, corticoide, tudo mexe. É por isso que o tratamento se chama manejo, não receita.
O que o SUS fornece e como conseguir
Insulina é direito, e no Brasil ela é fornecida pelo SUS pra toda pessoa com diabetes tipo 1. O que muda é qual insulina e por qual porta. Confira sempre como está na sua cidade, porque a organização varia entre estados e municípios.
Na unidade básica de saúde e na Farmácia Popular: insulina NPH e regular, fornecidas de graça com receita. Seringas, agulhas, lancetas, fitas de glicemia e glicosímetro costumam ser dispensados pelo município, com quantidades definidas por protocolo local.
Pela farmácia de alto custo (Componente Especializado da Assistência Farmacêutica): os análogos. As insulinas análogas de ação rápida (lispro, asparte, glulisina) estão no SUS pra diabetes tipo 1 desde 2017, e as análogas de ação longa (glargina, detemir, degludeca) desde 2019, dentro do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do diabetes tipo 1 do Ministério da Saúde. O protocolo prevê a longa principalmente pra quem tem hipoglicemia frequente ou grave com a NPH, e a rápida pra quem está em esquema basal-bolus. Na prática, o pedido é feito com receita, laudo (o LME, laudo pra solicitação de medicamento), exames recentes (hemoglobina glicada, em alguns estados peptídeo C) e documentos, e a dispensação é mensal ou trimestral. A primeira solicitação pode levar semanas pra ser aprovada, então a família não pode ficar sem insulina nesse meio-tempo: a NPH e a regular da UBS cobrem até a aprovação.
Bomba de insulina e sensor. A bomba não está incorporada ao SUS em âmbito nacional; algumas famílias conseguem por programas estaduais ou por via judicial, com laudo que justifique (hipoglicemias graves recorrentes, por exemplo). O sensor de glicose teve incorporação pra crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 anunciada pelo Ministério da Saúde em 2025, e a implantação está acontecendo por estado; pergunte na sua secretaria de saúde como está o fornecimento na sua região. Os planos de saúde são obrigados a cobrir insulina? Não, insulina de uso domiciliar em geral não é coberta pelo plano; bomba e sensor têm decisões judiciais nos dois sentidos.
O que ajuda a conseguir: uma receita completa (nome da insulina, concentração, dose, frequência, CID E10), laudo bem preenchido pelo médico com o histórico de hipoglicemia quando for o caso, exames dentro do prazo, e persistência. A Defensoria Pública atende de graça quando o fornecimento é negado ou interrompido. Nos direitos da criança com diabetes na escola eu detalho a parte que envolve a escola e as leis mais recentes.
Os erros que eu mais vejo
Treze anos depois do diagnóstico da Livia e milhares de alunas depois, os erros de insulina se repetem. Eu listo aqui porque eu cometi vários deles.
- Corrigir em cima de insulina ativa. A glicemia está em 250 duas horas depois do almoço, a família aplica a correção cheia, e às 16h a criança está em 55. A insulina do almoço ainda estava agindo. A regra que a equipe costuma dar é esperar 3 a 4 horas entre correções, ou descontar o que ainda está ativo.
- Pular ou atrasar a basal. É a dose que não pode faltar. Basal esquecida à noite é cetona de manhã. Vale alarme no celular e caneta com memória de dose.
- Aplicar sempre no mesmo lugar. Lipo-hipertrofia. Doses “que não funcionam” e hipoglicemias inexplicadas. Passe a mão na barriga e na coxa da sua criança de tempos em tempos procurando caroço.
- Esperar a glicemia “normalizar” pra comer. Criança com 250 antes do almoço come, com a insulina calculada pro carboidrato e pra correção, e com tempo de espera maior. Deixar sem comer é caminho pra cetona e pra relação ruim com comida.
- Ajustar a dose no impulso. Um dia ruim não define padrão. Padrão é 3 dias seguidos no mesmo horário. Registre e leve pra equipe.
- Não saber o perfil da própria insulina. Família usando NPH sem saber a hora do pico, aplicando regular na hora de comer, corrigindo com Lyumjev como se fosse Humalog. Volte na tabela desta página e cole na geladeira.
- Insulina estragada. Caneta no calor, frasco congelado, prazo de 28 dias vencido. Glicemia que não responde: trocar a caneta é das primeiras coisas a tentar.
- Falar de insulina como castigo. “Se comer isso vai ter que tomar mais insulina.” A criança aprende que insulina é punição e comida é crime, e leva isso pra adolescência, onde omitir dose vira a forma de se rebelar ou de emagrecer. Insulina é a dose de vida que acompanha a comida, e é assim que a gente fala dela em casa.
Por onde continuar
Insulina é o assunto que mais família aprende “na prática” sem nunca ter tido uma aula. A Trilha DM1 é gratuita, tem cinco módulos (recém-diagnosticado, entendendo a doença, insulina, alimentação, qualidade de vida) e o módulo de insulina destrincha em vídeo tudo o que está nesta página, com exemplos.
Começar a Trilha DM1 (gratuita)Se você quer sentar com alguém que vive isso pra revisar o esquema da sua criança, entender os relatórios do sensor e organizar as perguntas e os dados pra levar ao endocrinologista, eu atendo online famílias de todo o Brasil no acompanhamento nutricional em diabetes.
Um abraço. Insulina é vida, e a gente aprende a lidar com ela.
Perguntas frequentes
Quatro grupos, pelo tempo de ação: ultrarrápida (Fiasp, Lyumjev) e rápida (Humalog, NovoRapid, Apidra), usadas nas refeições e correções; regular (humana), também de refeição, mais lenta; NPH (intermediária) e as análogas longas e ultralongas (glargina, detemir, degludeca), usadas como basal. A diferença entre elas é quando começam a agir, quando fazem pico e quanto tempo duram.
Basal é a insulina de fundo, que cobre a glicose produzida pelo fígado o dia inteiro, mesmo sem comer: é a longa ou a NPH na caneta, ou a infusão contínua na bomba. Bolus é a dose da refeição (calculada pelo carboidrato) e da correção (calculada pelo fator de sensibilidade), feita com insulina rápida ou ultrarrápida. Juntos, imitam o que o pâncreas de quem não tem diabetes faz.
Depende da insulina e da glicemia. Referência das diretrizes: análoga rápida, 15 a 20 minutos antes; regular, 30 minutos; ultrarrápida, na hora ou logo depois de começar a comer. Com glicemia baixa antes da refeição, espera menos; com glicemia alta, espera mais. Em criança pequena que pode não comer tudo, a equipe pode orientar aplicar logo depois de começar.
A relação insulina/carboidrato (I:C) diz quantos gramas de carboidrato 1 unidade cobre (1:15 = 1 unidade pra 15 g). O fator de sensibilidade (FS) diz quantos mg/dL 1 unidade abaixa (FS 50 = 1 unidade derruba 50 mg/dL). Os dois são definidos pela equipe pra cada criança, costumam mudar ao longo do dia e da vida, e são a base do cálculo de todo bolus.
No tecido subcutâneo, com agulha de 4 mm a 90 graus, fazendo rodízio entre barriga, braço, coxa e glúteo. A barriga absorve mais rápido (boa pro bolus da refeição), a coxa e o glúteo mais devagar (bons pra basal). Não aplicar onde a criança vai fazer exercício, e nunca no mesmo ponto repetidas vezes, pra evitar lipo-hipertrofia.
A caneta ou frasco em uso pode ficar em temperatura ambiente, abaixo de 30 °C, por até 28 dias na maioria das insulinas (algumas, como a degludeca, mais; ver bula). A que ainda não foi aberta fica na geladeira, entre 2 e 8 °C, longe do congelador. Insulina que congelou ou ficou no calor perde potência e deve ser descartada.
Sim. NPH e regular na unidade básica de saúde e na Farmácia Popular, com receita. As análogas rápidas (lispro, asparte, glulisina) e longas (glargina, detemir, degludeca) pelo Componente Especializado (farmácia de alto custo), com receita, laudo e exames, conforme o PCDT do diabetes tipo 1. Bomba de insulina não está incorporada nacionalmente; o sensor teve incorporação pra crianças e adolescentes anunciada em 2025, com implantação por estado.
Sim, em qualquer idade, segundo ISPAD, SBD e ADA. A bomba infunde insulina rápida em microdoses como basal e calcula o bolus com a I:C, o FS e a insulina ativa. Exige treinamento da família, troca de cânula a cada 2 ou 3 dias e medição de cetona diante de glicemia alta inexplicada, porque sem basal longa de reserva a criança fica sem insulina rápido se o conjunto falha.
Porque a necessidade de insulina muda com a lua de mel (cai nos meses após o diagnóstico e sobe de novo quando as células beta param), com o crescimento (a dose total sobe com o peso), com a puberdade (os hormônios causam resistência à insulina e a dose por quilo sobe), e com doença, exercício, estresse e sono. Ajuste de dose é rotina do tratamento, feita com a equipe a partir dos registros.
Fontes
- Cengiz E, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Insulin treatment in children and adolescents with diabetes. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1277-1296.
- Sherr JL, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Diabetes technologies: insulin delivery. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1406-1431.
- Tauschmann M, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Diabetes technologies: glucose monitoring. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1390-1405.
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz da SBD, edição 2026. Capítulos “Insulinoterapia no diabetes mellitus tipo 1” e “Peculiaridades do tratamento da criança com DM1”. https://diretriz.diabetes.org.br/
- American Diabetes Association. Pharmacologic Approaches to Glycemic Treatment: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). https://doi.org/10.2337/dc26-S009
- American Diabetes Association. Children and Adolescents: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). https://doi.org/10.2337/dc26-S014
- Frid AH, et al. New Insulin Delivery Recommendations (FITTER). Mayo Clinic Proceedings. 2016;91(9):1231-1255.
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17, de 12 de novembro de 2019.
- Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) 2024.
- Bulas aprovadas pela Anvisa: Fiasp, Lyumjev, Humalog, NovoRapid, Apidra, Humulin R/N, Novolin R/N, Lantus, Basaglar, Levemir, Toujeo, Tresiba.
Texto escrito por Christine Rolke, nutricionista (CRN 24102380), mestre em Imunologia, educadora em diabetes e mãe de criança com diabetes tipo 1. Conheça a minha história.
Revisado em 18/09/2026. Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação da equipe que acompanha a sua criança. Doses, relação insulina/carboidrato, fator de sensibilidade e tempo de espera são individuais e definidos pela equipe.