Glucagon: o que é, como funciona e por que ele falha no diabetes tipo 1

Toda mãe de criança com diabetes tipo 1 tem um kit de glucagon em casa, e a maioria nunca usou. É o remédio que a gente compra torcendo pra vencer na gaveta. Mas você já parou pra pensar o que ele é, exatamente? Por que ele funciona? E por que o corpo da sua criança, que produz glucagon normalmente, precisa de um glucagon de fora numa hipoglicemia grave?

Eu dou aula de fisiologia pra alunos de Medicina, e essa é uma das aulas que eu mais gosto de dar, porque o glucagon é a metade da história do diabetes que quase ninguém conta. A gente fala de insulina o tempo todo. Mas o diabetes tipo 1 é uma doença de dois hormônios, e entender o segundo muda o jeito de olhar pra hipoglicemia, pra cetoacidose e pro próprio kit na gaveta.

Vou explicar em três partes: o que o glucagon faz num corpo sem diabetes, o que acontece com ele no diabetes tipo 1, e o que isso significa na prática, com as doses da diretriz.

O glucagon num corpo sem diabetes

A primeira coisa que a gente precisa saber é de onde ele vem. Dentro do pâncreas existem ilhotas, que são aglomerados microscópicos de células. A maior parte dessas células é célula beta, que produz insulina. Misturadas a elas, lado a lado, ficam as células alfa, que produzem glucagon. Essa vizinhança não é por acaso, e a gente vai voltar nela.

A insulina e o glucagon são opostos. A insulina tira glicose do sangue e guarda: no fígado (na forma de glicogênio), no músculo, na gordura. O glucagon faz o contrário: manda o fígado devolver glicose pro sangue. Um guarda, o outro libera. A glicemia de uma pessoa sem diabetes fica entre 70 e 100 em jejum porque esses dois estão o tempo todo se equilibrando.

O glucagon age quase só no fígado. Quando ele sai do pâncreas, cai numa veia que vai direto pro fígado, a veia porta, e chega lá numa concentração duas a três vezes maior do que no resto do corpo. No fígado ele liga dois processos:

  1. Glicogenólise: quebrar o glicogênio, que é a glicose guardada em cadeia, e soltar glicose no sangue. É rápido, funciona em minutos, e é o que resolve a hipoglicemia.
  2. Gliconeogênese: fabricar glicose nova a partir de outras coisas, principalmente aminoácidos do músculo e glicerol da gordura. É mais lento e é o que sustenta a glicemia num jejum longo.

E quando o glucagon é liberado? Principalmente quando a glicemia cai. Se você fica muitas horas sem comer, ou faz exercício, ou tem uma hipoglicemia, o corpo percebe (o cérebro percebe, e manda sinal pela via nervosa até a ilhota) e a célula alfa solta glucagon. Em poucos minutos o fígado despeja glicose e a glicemia sobe. É a primeira linha de defesa contra a hipoglicemia. A adrenalina é a segunda, e é ela que dá o tremor, o suor e o coração acelerado.

Glicemia caijejum, exercício, hipo Célula alfa(pâncreas)libera glucagon veia porta Fígadoquebra glicogênio(glicogenólise)fabrica glicose nova Glicemiasobe Célula betainsulina freia a célula alfa
Esquema didático. No diabetes tipo 1 a célula beta some, o freio da insulina sobre a célula alfa some junto, e a via nervosa que avisa a ilhota da hipoglicemia se perde com os anos.

O freio: por que insulina e glucagon moram juntos

Agora a vizinhança. A célula alfa fica encostada na célula beta, e a insulina que a célula beta solta banha a célula alfa antes de cair na circulação. Essa insulina local é o freio principal do glucagon. Quando você come, a glicemia sobe, a célula beta despeja insulina, e essa insulina, ali dentro da ilhota, manda a célula alfa calar a boca. O glucagon cai, o fígado para de soltar glicose, e a glicemia não dispara.

Quando a glicemia cai, acontece o inverso: a célula beta para de secretar, o freio solta, e a célula alfa fica livre pra liberar glucagon. Então o sinal pra célula alfa não é só “a glicose está baixa”. É também “a insulina do lado sumiu”. Guarde isso, porque é o que explica o diabetes tipo 1.

O que o diabetes tipo 1 faz com o glucagon

No diabetes tipo 1 o sistema imunológico destrói a célula beta. A célula alfa continua lá, intacta, produzindo glucagon. Parece que o problema é só a falta de insulina, mas não é. Três coisas quebram ao mesmo tempo.

1. O freio some

Sem célula beta, não existe mais insulina dentro da ilhota. A insulina que a criança aplica circula no sangue, mas não chega na concentração que a célula alfa está acostumada a sentir do lado dela. Resultado: a célula alfa perde o freio. A pessoa com diabetes tipo 1 tem glucagon um pouco alto o tempo todo, e o pior, ele sobe depois de comer, quando deveria cair. Isso é parte do motivo pela qual a glicemia pós-refeição é tão difícil de controlar no tipo 1: não é só a insulina que falta, é o glucagon que sobra e manda o fígado soltar glicose bem na hora em que a comida também está chegando.

2. A resposta à hipoglicemia se perde

Esse é o ponto que mais importa pra você. A célula alfa, que deveria disparar glucagon quando a glicemia cai, deixa de responder. A ISPAD, sociedade internacional de diabetes pediátrico, escreve isso com todas as letras na diretriz de 2022: a perda da resposta do glucagon à hipoglicemia já foi demonstrada 12 meses depois do diagnóstico, e na maioria das pessoas com diabetes tipo 1 ela está perdida em 5 anos.

Por que a célula alfa para de responder se ela está viva? Dois motivos, pelo que a ciência entende hoje. O primeiro é o freio que eu expliquei: a célula alfa aprendia que era hora de soltar glucagon quando a insulina do lado sumia; sem célula beta, esse sinal não existe mais. O segundo é que os nervos que levam o aviso do cérebro até a ilhota se perdem cedo no diabetes tipo 1 (isso foi mostrado em estudos de ilhota de pessoas com tipo 1), e a ativação nervosa é o maior gatilho da célula alfa na hipoglicemia.

Na prática: a criança com diabetes tipo 1 tem insulina de fora, que não desliga sozinha quando a glicemia cai, e não tem mais o glucagon de dentro pra compensar. Sobra a adrenalina, que é a segunda linha. E a adrenalina tem um problema: cada hipoglicemia que a criança tem deixa a resposta da adrenalina um pouco mais fraca na próxima, e os sintomas de aviso ficam mais discretos. É o que a literatura chama de “hipoglicemia gera hipoglicemia”. Por isso a equipe insiste tanto em evitar hipos repetidas, mesmo as leves: não é só pelo susto de agora, é pra preservar a capacidade de sentir a próxima.

3. Na cetoacidose, o glucagon está alto

O terceiro ponto explica a cetoacidose. Quando falta insulina de verdade (caneta esquecida, cateter dobrado, doença), o glucagon sem freio dispara. E o glucagon alto com insulina zero faz o fígado fazer duas coisas: despejar glicose (a glicemia vai a 400, 500) e queimar gordura produzindo cetonas. A cetoacidose é, em boa parte, uma doença de excesso de glucagon. Num corpo sem diabetes, a glicemia de 400 desligaria a célula alfa na hora. No tipo 1 não desliga. Se você quiser entender esse lado, escrevi sobre cetoacidose diabética, sinais e o que fazer.

O glucagon de fora: o kit

Se a criança não tem mais o glucagon de dentro na hipoglicemia, o tratamento da hipoglicemia grave é dar glucagon de fora. É pra isso que o kit existe. Ele é o mesmo hormônio, produzido em laboratório, e faz exatamente o que a célula alfa faria: chega no fígado e manda quebrar glicogênio. Em 10 a 15 minutos a glicemia sobe.

Isso tem duas consequências que toda mãe precisa saber:

  • O glucagon precisa de estoque no fígado pra funcionar. Se a criança está em jejum longo, vomitou o dia inteiro ou fez exercício intenso, o glicogênio pode estar baixo, e o glucagon tem menos com o que trabalhar. Não é motivo pra não usar; é motivo pra chamar o SAMU (192) junto, e pra dar carboidrato assim que ela engolir.
  • O efeito é curto. O fígado esvazia o estoque e a insulina que estava no corpo continua agindo. Por isso a glicemia pode cair de novo em uma ou duas horas. Depois do glucagon vem sempre comida.

As doses do kit injetável, pela ISPAD 2022: 1 mg pra criança acima de 25 kg e 0,5 mg (metade do frasco) pra criança abaixo de 25 kg, na coxa ou no braço, no músculo ou embaixo da pele. Se a glicemia não subir em 30 minutos, repete com o dobro. Náusea e vômito depois de acordar são comuns, então a criança fica deitada de lado. Esses números são a diretriz geral; a dose da sua criança precisa estar escrita pela equipe, à mão, antes de precisar. Emergência não é hora de calcular.

O passo a passo de preparar, aplicar e o que fazer depois está no meu texto sobre hipoglicemia em crianças, na seção “Glucagon na prática”. Aqui eu quero só que fique claro por que ele funciona e por que ele é insubstituível: não existe outro jeito de fazer o fígado soltar glicose numa criança que não consegue engolir.

Glucagon nasal e caneta pronta

Fora do Brasil existem apresentações que dispensam o preparo: o glucagon em pó nasal (3 mg, dose única, a partir de 4 anos), a caneta de dasiglucagon (a partir de 6 anos) e a caneta de glucagon líquido estável. A ISPAD cita todas na diretriz de 2022, e um estudo em jovens com diabetes tipo 1 mostrou que o nasal resolve a hipoglicemia tão bem quanto o injetável, com muito menos erro de quem aplica, porque não tem pó pra misturar. Em 2026 nenhuma dessas está à venda no Brasil. Quando chegar, muda a vida de quem tem medo da seringa. Até lá, o kit injetável treinado é o que a gente tem, e funciona.

A mini-dose: o glucagon pra hipoglicemia que não é grave

Existe um uso do glucagon que muita família não conhece e que vale a conversa com a equipe. Numa criança que está com glicemia baixa mas acordada, e que não consegue comer (vomitando, com virose, ou simplesmente recusando porque é pequena e está brava), a dose completa do kit é exagerada e vai dar náusea. A alternativa é a mini-dose: uma fração do glucagon, aplicada embaixo da pele com seringa de insulina.

Pela ISPAD 2022, o protocolo é por idade: 2 unidades (20 microgramas) até 2 anos, e 1 unidade por ano de idade dos 3 aos 15 anos, no máximo 15 unidades. Se a glicemia não subir em 30 minutos, repete com o dobro. Nos estudos, a mini-dose subiu a glicemia em média 85 mg/dL em 30 minutos e evitou idas ao hospital.

Eu escrevo isso pra você saber que existe, não pra fazer por conta. É prescrição: a equipe define se a sua criança se beneficia, qual a dose, e ensina a aspirar do frasco. Pergunte na próxima consulta. Muita mãe de criança pequena, dessas que fecham a boca na hipoglicemia, descobre nesse protocolo um alívio enorme.

O que muda na sua cabeça depois de entender o glucagon

Quando a Livia foi diagnosticada, eu achava que o problema dela era um só: faltava insulina. Levei tempo pra entender que ela tinha perdido, junto, a defesa natural contra a hipoglicemia. Isso muda algumas coisas no dia a dia:

  1. A hipoglicemia não vai se resolver sozinha. Num corpo sem diabetes, uma glicemia de 60 dispara glucagon e sobe em minutos, mesmo sem comer. Na criança com tipo 1, não. Ou entra carboidrato, ou não sobe. Não espere “pra ver”.
  2. O kit não é enfeite. Ele é o hormônio que a criança não tem mais na hora que mais precisa. Treinar com um kit vencido, saber onde ele está, conferir a validade a cada seis meses: isso é parte do tratamento.
  3. Evitar hipos leves protege contra hipos graves. Cada hipoglicemia enfraquece a segunda linha de defesa, a adrenalina, e apaga os sinais de aviso. Tempo no alvo não é só sobre a glicada.
  4. A cetoacidose é rápida porque o glucagon está sem freio. Uma criança com tipo 1 sem insulina por poucas horas já está com o fígado despejando glicose e cetona. Cetona alta com glicemia alta é insulina faltando e glucagon sobrando, e o remédio é insulina, não esperar.

Espero que agora o kit na gaveta faça mais sentido. Se você quiser conversar sobre como isso se aplica à sua criança, eu atendo online famílias de todo o Brasil no acompanhamento nutricional em diabetes tipo 1.

Perguntas frequentes

O que é glucagon?

É o hormônio produzido pelas células alfa do pâncreas que faz a glicemia subir. Ele age no fígado, mandando quebrar o glicogênio (glicose guardada) e fabricar glicose nova. É o oposto da insulina, que guarda glicose, e é a primeira defesa do corpo contra a hipoglicemia.

Pessoa com diabetes tipo 1 produz glucagon?

Produz. A célula alfa não é destruída pelo sistema imunológico, só a célula beta. O problema é que, sem a insulina da célula beta vizinha, a célula alfa perde o freio (o glucagon fica alto depois de comer e na cetoacidose) e perde o gatilho (deixa de responder à hipoglicemia). Pela ISPAD 2022, essa resposta já falha 12 meses depois do diagnóstico e está perdida na maioria das pessoas em 5 anos.

Por que a criança com diabetes tipo 1 precisa de kit de glucagon se ela produz glucagon?

Porque na hipoglicemia a célula alfa dela não dispara mais. O kit é o mesmo hormônio, de fora, que faz o fígado soltar glicose quando a criança não consegue engolir carboidrato. Não existe substituto pra isso numa hipoglicemia grave.

Qual a dose de glucagon pra criança?

Pela ISPAD 2022: 1 mg pra criança acima de 25 kg e 0,5 mg (meio frasco) pra criança abaixo de 25 kg, no músculo ou embaixo da pele; repetir com o dobro se a glicemia não subir em 30 minutos. A dose da sua criança deve estar prescrita e escrita antes da emergência.

O que é mini-dose de glucagon?

É uma fração do glucagon, aplicada com seringa de insulina, pra hipoglicemia leve em criança que está acordada mas não consegue ou não quer comer (vômito, virose, recusa). Pela ISPAD 2022: 2 unidades até 2 anos e 1 unidade por ano de idade de 3 a 15 anos, máximo 15 unidades. É protocolo prescrito pela equipe, não pra usar por conta.

Glucagon nasal existe no Brasil?

Em 2026, não. O glucagon em pó nasal (3 mg, a partir de 4 anos), o dasiglucagon em caneta e o glucagon líquido em caneta existem em outros países e estão na diretriz da ISPAD, mas não são vendidos aqui. No Brasil o tratamento da hipoglicemia grave é o kit injetável.

Por que a glicemia cai de novo depois do glucagon?

Porque o glucagon esvazia o estoque de glicogênio do fígado e tem efeito curto, enquanto a insulina que estava no corpo continua agindo. Depois que a criança acorda e consegue engolir, ela precisa comer carboidrato, e a glicemia precisa ser acompanhada por algumas horas.

Glucagon funciona se a criança está em jejum ou vomitou?

Funciona pior, porque tem menos glicogênio no fígado pra quebrar. Não é motivo pra deixar de usar numa hipoglicemia grave, mas é motivo pra chamar o SAMU (192) junto e dar carboidrato assim que ela conseguir engolir.

O que o glucagon tem a ver com a cetoacidose?

Quando falta insulina, o glucagon fica sem freio e dispara. Glucagon alto com insulina zero faz o fígado despejar glicose e produzir cetonas. A cetoacidose é, em parte, uma doença de excesso de glucagon, e o tratamento é insulina.

Leia também

Fontes

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  • Cryer PE. Minireview: Glucagon in the pathogenesis of hypoglycemia and hyperglycemia in diabetes. Endocrinology. 2012;153(3):1039-1048.
  • Cryer PE. Mechanisms of hypoglycemia-associated autonomic failure in diabetes. N Engl J Med. 2013;369(4):362-372.
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  • Gerich JE, Langlois M, Noacco C, Karam JH, Forsham PH. Lack of glucagon response to hypoglycemia in diabetes: evidence for an intrinsic pancreatic alpha cell defect. Science. 1973;182(4108):171-173.
  • Taborsky GJ Jr, Mundinger TO. Minireview: The role of the autonomic nervous system in mediating the glucagon response to hypoglycemia. Endocrinology. 2012;153(3):1055-1062.
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  • Aires MM. Fisiologia. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2012. Nelson DL, Cox MM. Princípios de Bioquímica de Lehninger. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2014.

Texto escrito por Christine Rolke, nutricionista (CRN 24102380), mestre em Imunologia, professora de Medicina, educadora em diabetes e mãe de criança com diabetes tipo 1. Revisado em 21 de setembro de 2026. Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação da equipe que acompanha a sua criança. Dose de glucagon e protocolo de mini-dose são prescrição médica.

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Christine Rolke

Christine Rolke, nutricionista (CRN 24102380), cirurgiã-dentista, mestre em Imunologia, educadora em diabetes e mãe da Livia, que tem diabetes tipo 1 desde os 13 meses. Conheça a minha história.

Conteúdo educativo: não substitui a orientação da equipe que acompanha a sua criança.

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