Tabela de hemoglobina glicada: valores e o que cada um significa

Você pegou o resultado da hemoglobina glicada da sua filha, viu um número tipo 7,8% e ficou sem saber se isso é bom, ruim ou mais ou menos? Esse texto é pra isso. Tem a tabela, tem a conta de quanto cada valor representa de glicemia média e tem o que a gente faz com essa informação na prática.

Eu sou a Christine, nutricionista, educadora em diabetes e mãe da Livia, que tem diabetes tipo 1 desde os 13 meses. Já peguei muito resultado de glicada com o coração na mão. Hoje eu olho pra esse exame de outro jeito, e é isso que eu quero te passar aqui.

O que é hemoglobina glicada (HbA1c)

A hemoglobina é a proteína que fica dentro das hemácias, as células vermelhas do sangue, carregando oxigênio. Quando a glicose circula no sangue, uma parte dela gruda na hemoglobina. Esse processo se chama glicação, e ele é proporcional: quanto mais glicose no sangue, mais hemoglobina glicada.

A hemácia vive em média 120 dias. Por isso o exame reflete a média das glicemias dos últimos 2 a 3 meses, com peso maior pras últimas 4 semanas. Uma semana ruim de glicemia mexe pouco no resultado. Dois meses ruins mexem bastante.

O resultado vem em porcentagem: é a proporção de hemoglobina que está glicada. Uma pessoa sem diabetes fica em torno de 5%.

Tabela de hemoglobina glicada e glicemia média estimada

A porcentagem sozinha é abstrata. O que ajuda a entender é converter em glicemia média, o número que a gente vê no glicosímetro e no sensor todo dia. A fórmula vem do estudo ADAG (Nathan e colaboradores, 2008), que é a mesma usada pela ADA e pela SBD:

Glicemia média estimada (mg/dL) = 28,7 × HbA1c − 46,7

Tabela de hemoglobina glicada (HbA1c) de 5% a 14% com a glicemia média estimada em mg/dL
HbA1c (%)Glicemia média estimada (mg/dL)Como interpretar (pessoa com diabetes)
5,097Abaixo do esperado pra quem usa insulina; investigar hipoglicemias
5,5111Abaixo do esperado pra quem usa insulina; investigar hipoglicemias
6,0126Muito bom, desde que sem hipoglicemia frequente
6,5140Muito bom, desde que sem hipoglicemia frequente
7,0154Meta geral: abaixo de 7%
7,5169Meta flexível pra criança com hipoglicemia frequente ou sem sensor
8,0183Acima da meta. Revisar doses, contagem, rotina
8,5197Acima da meta. Revisar doses, contagem, rotina
9,0212Bem acima da meta. Risco de complicações aumenta
9,5226Bem acima da meta. Risco de complicações aumenta
10,0240Controle muito insuficiente. Precisa de mudança no tratamento
11,0269Controle muito insuficiente. Precisa de mudança no tratamento
12,0298Controle muito insuficiente. Comum no diagnóstico
13,0326Controle muito insuficiente. Comum no diagnóstico
14,0355Controle muito insuficiente. Comum no diagnóstico

Uma observação sobre a linha de 5% e 5,5%: em tabelas antigas que circulam na internet, esses valores aparecem como “excelente controle”. Pra quem não tem diabetes, sim. Pra quem usa insulina, uma glicada de 5% quase sempre significa muita hipoglicemia escondida na média. A ISPAD deixa isso claro: meta abaixo de 6,5% só pra quem consegue chegar lá sem hipoglicemia e sem prejuízo da qualidade de vida.

Valores de referência: normal, pré-diabetes e diabetes

Essa é outra tabela, usada pra diagnóstico, em quem ainda não tem o diagnóstico de diabetes. Muita gente confunde as duas.

HbA1cClassificação
Abaixo de 5,7%Normal
5,7% a 6,4%Pré-diabetes (risco aumentado)
6,5% ou maisDiabetes (confirmar com segundo exame)

Importante: no diabetes tipo 1 da criança, o diagnóstico raramente é feito pela glicada. A criança chega com glicemia de 300, 400, muitas vezes em cetoacidose, e a glicada vem alta como consequência. Ela serve mais pra mostrar há quanto tempo a glicose já estava subindo.

Qual a meta de hemoglobina glicada pra criança com diabetes tipo 1

As três referências que a gente usa no Brasil dizem o seguinte:

  • Diretriz da SBD 2026: abaixo de 7,0% pra todas as idades, desde que não custe hipoglicemias graves ou frequentes. Abaixo de 7,5% quando há hipoglicemia assintomática, histórico de hipoglicemia grave ou falta de acesso a tecnologia.
  • ISPAD 2024 (a sociedade internacional de diabetes pediátrico, na atualização mais recente): a meta passou a ser 6,5% ou menos pra crianças e adolescentes que têm sensor e sistema automatizado de insulina, sempre que for possível chegar lá com segurança. Sem essa tecnologia, 7,0% ou menos.
  • ADA 2026: abaixo de 7,0% como regra, mais baixa quando alcançável sem hipoglicemia.

Ou seja, a tendência é de meta cada vez mais baixa, e o que permite isso é a tecnologia. Não existe mais aquela ideia antiga de que criança pequena podia ficar com glicada de 8% ou 8,5% “pra evitar hipoglicemia”. Os estudos mostraram que a hiperglicemia crônica nos primeiros anos afeta o cérebro em desenvolvimento, e que com sensor dá pra buscar meta mais baixa com segurança. A Diretriz da SBD 2026 faz a ressalva certa: essa meta só deve ser perseguida quando a família tem acesso à monitorização.

A meta da sua filha é definida com a equipe dela. O que eu quero que você leve daqui é: 7% é a referência, não é obrigação. Uma criança que saiu de 9,5% pra 8% fez um progresso enorme, mesmo ainda estando “fora da meta”.

O que a glicada não mostra (e por que hoje ela diz pouco)

Aqui está o limite do exame, e é importante entender isso pra não superestimar o número.

A glicada é uma média. Uma criança com glicemias entre 100 e 200 o dia inteiro pode ter a mesma glicada de 7% que uma criança que oscila entre 40 e 350. A primeira está bem. A segunda está tendo hipoglicemias e hiperglicemias graves. A média esconde a variabilidade.

Quando a Livia foi diagnosticada, em 2013, a glicada era o exame que a gente tinha. Era ela que dizia se os três meses tinham sido bons ou ruins. Hoje, com sensor, a glicada virou coadjuvante. O relatório do sensor mostra o que a glicada nunca vai mostrar: quanto tempo a criança passou no alvo, quanto tempo em hipoglicemia, o que acontece de madrugada, o que acontece depois do café da manhã. É isso que orienta o ajuste do tratamento. A glicada só confirma.

As metas do sensor que a SBD 2026, a ISPAD 2024 e o Consenso Internacional de Tempo no Alvo usam:

Metas do sensor: tempo no alvo acima de 70%, menos de 4% abaixo de 70 mg/dL, e a hemoglobina glicada aproximada pra cada tempo no alvo
  • Tempo no alvo (TIR): porcentagem do tempo entre 70 e 180 mg/dL. Meta: acima de 70%.
  • Tempo abaixo de 70: meta abaixo de 4%. Abaixo de 54: menos de 1%.
  • Coeficiente de variação (CV): mede a oscilação. Meta: abaixo de 36%.
  • Indicador de gerenciamento da glicose (GMI ou IGM): uma “glicada estimada” calculada a partir dos 14 dias do sensor. É útil pra acompanhar entre um exame e outro.

Cada 10% a mais de tempo no alvo corresponde a mais ou menos 0,5 ponto a menos na glicada. Um estudo de 2025 com uma coorte pediátrica grande do Colorado confirmou isso: cada 1 ponto a mais de glicada correspondeu a cerca de 9% a menos de tempo no alvo. Uma criança com 70% do tempo no alvo costuma ter glicada em torno de 7%. Mas duas crianças com 70% no alvo podem estar em situações muito diferentes: uma com 2% abaixo de 70, outra com 8%. A segunda precisa de ajuste urgente, e a glicada das duas é igual.

Dois estudos recentes ajudam a entender por que a glicada e o sensor às vezes não batem. Um estudo turco de 2026, com crianças usando sistema automatizado de insulina, encontrou diferença média de 0,57 ponto entre a glicada de laboratório e o GMI do sensor, e mostrou que o GMI se correlaciona melhor com o tempo no alvo e com o tempo em hipoglicemia do que a própria glicada. Um estudo coreano de 2025 mostrou que a média de glicose das 4 semanas anteriores ao exame é o que mais pesa no resultado. Na prática: se as últimas semanas foram diferentes do resto do trimestre, a glicada vai refletir mais essas semanas.

Quando a glicada engana

Existem situações em que o exame dá um resultado que não corresponde à glicemia real. Vale conhecer:

  • Anemia por falta de ferro: as hemácias vivem mais tempo e a glicada tende a vir mais alta do que deveria.
  • Anemia hemolítica, sangramento, transfusão recente: hemácias novas, glicada mais baixa que a real.
  • Hemoglobinopatias (traço falciforme, talassemia): dependendo do método do laboratório, o resultado pode vir alterado. Em quem tem histórico familiar, vale avisar o laboratório.
  • Lua de mel: nos primeiros meses depois do diagnóstico, o pâncreas ainda produz insulina e a glicada cai rápido, às vezes pra 6%. Isso não é “controle perfeito” e não significa que o diabetes está indo embora. É uma fase, e as doses precisam de revisão frequente.
  • Crescimento e puberdade: os hormônios do crescimento aumentam a resistência à insulina. A glicada sobe na adolescência mesmo com a família fazendo tudo certo. Isso é fisiologia, não falha.

Quando a glicada e os dados do sensor não batem (exemplo: GMI de 7% e glicada de 8%), o problema pode ser um desses fatores. É assunto pra levar à consulta, não pra tentar corrigir sozinha.

De quanto em quanto tempo fazer o exame

A recomendação é a cada 3 meses, porque é o tempo de renovação das hemácias. Fazer antes disso não mostra mudança real. Em crianças com controle estável e usando sensor, alguns serviços espaçam pra 4 a 6 meses e acompanham pelo GMI.

Como eu uso a glicada da Livia hoje

No começo eu ficava presa no número. Se vinha 7,4% eu me culpava pelo 0,4. Hoje eu olho o relatório do sensor primeiro: quanto tempo no alvo, quanto tempo abaixo de 70, como estão as noites. A glicada vem depois, como confirmação.

Se a sua filha ainda não usa sensor, a glicada e o diário de glicemias são o que vocês têm, e servem. Anotar as glicemias com horário e o que aconteceu (refeição, atividade, doença) dá pro médico muito mais informação que o número isolado do exame.

No acompanhamento nutricional eu ajudo a família a ler esses dados: onde a glicemia está subindo, se é contagem de carboidrato, se é horário de aplicação, se é o café da manhã que sempre estoura. É desse tipo de análise que sai a mudança na glicada, não de olhar o resultado e se cobrar. Atendo crianças e adultos, com diabetes tipo 1 ou tipo 2. Se quiser, fala comigo.

Perguntas frequentes

O que é considerado uma hemoglobina glicada normal?

Em quem não tem diabetes, abaixo de 5,7%. Entre 5,7% e 6,4% indica pré-diabetes. A partir de 6,5%, em dois exames, é critério de diagnóstico de diabetes.

Qual a meta de hemoglobina glicada pra quem tem diabetes tipo 1?

Abaixo de 7,0% pra crianças, adolescentes e adultos, desde que sem hipoglicemias graves ou frequentes (SBD 2026). A ISPAD 2024 recomenda 6,5% ou menos pra crianças com sensor e sistema automatizado. Abaixo de 7,5% é aceitável quando há risco maior de hipoglicemia ou falta de acesso a tecnologia. A meta individual é definida com a equipe.

Hemoglobina glicada de 7% corresponde a qual glicemia?

A uma glicemia média de aproximadamente 154 mg/dL. A fórmula é: glicemia média = 28,7 × HbA1c − 46,7.

Hemoglobina glicada de 8% é muito alta?

Corresponde a uma média de 183 mg/dL, acima da meta de 7%. Não é uma emergência, mas indica que o tratamento precisa de ajuste. Muitas crianças ficam nessa faixa na puberdade.

A glicada mede os últimos 3 meses?

Sim, reflete a média das glicemias de aproximadamente 2 a 3 meses, com maior peso nas últimas 4 semanas, porque é o tempo de vida das hemácias.

Glicada baixa é sempre bom?

Não. Em quem usa insulina, glicada muito baixa (5% a 6%) frequentemente esconde hipoglicemias. O ideal é avaliar junto com o tempo abaixo de 70 mg/dL no sensor.

O que é GMI ou indicador de gerenciamento da glicose?

É uma estimativa da glicada calculada a partir da média de glicose do sensor nos últimos 14 dias. Serve pra acompanhar o controle entre um exame e outro. Pode diferir da glicada de laboratório em até 0,5 ponto.

Leia também

Fontes

  • Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz da SBD, edição 2026. Capítulos “Metas de controle glicêmico” (https://diretriz.diabetes.org.br/metas-de-controle-glicemico/) e “Diagnóstico de diabetes mellitus” (https://diretriz.diabetes.org.br/diagnostico-de-diabetes-mellitus/).
  • de Bock M, Agwu JC, et al. International Society for Pediatric and Adolescent Diabetes Clinical Practice Consensus Guidelines 2024: Glycemic Targets. Horm Res Paediatr. 2024;97(6):546-554. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39701064/
  • American Diabetes Association. Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S132-S149. https://doi.org/10.2337/dc26-S006
  • Sobczak M, Pyle L, Sawyer A, Forlenza GP, Alonso GT. Correlation Between A1c and Continuous Glucose Monitor Time in Range in a Cohort of Pediatric Patients with Type 1 Diabetes. Diabetes Technol Ther. 2025;27(7):567-573. https://doi.org/10.1089/dia.2024.0500
  • Arslan E, Balkı HG, Özalp Kızılay D, et al. The Relationship between Hemoglobin A1c and the Glucose Management Indicator and Glucose Metrics in Children and Adolescents with Type 1 Diabetes Mellitus Using Automated Insulin Delivery Systems. J Clin Res Pediatr Endocrinol. 2026;18(2):314-321. https://doi.org/10.4274/jcrpe.galenos.2025.2025-10-11
  • Lee H, Yang M, Kim HY, et al. Development of a glycated hemoglobin prediction model using continuous glucose monitoring metrics in pediatric type 1 diabetes mellitus. Ann Pediatr Endocrinol Metab. 2025;31(3):189-197. https://doi.org/10.6065/apem.2550214.107
  • Battelino T, et al. Clinical targets for continuous glucose monitoring data interpretation: recommendations from the International Consensus on Time in Range. Diabetes Care. 2019;42(8):1593-1603. (consenso ainda vigente, adotado pela SBD 2026 e ISPAD 2024)
  • Nathan DM, et al. Translating the A1C assay into estimated average glucose values. Diabetes Care. 2008;31(8):1473-1478. (estudo ADAG, origem da fórmula da glicemia média estimada, ainda usada pela ADA 2026)

Texto escrito por Christine Rolke, nutricionista (CRN 24102380), educadora em diabetes e mãe de criança com diabetes tipo 1. Revisado em 13/09/2026. Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação da equipe que acompanha você ou a sua criança. Metas são sempre individuais.

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Christine Rolke

Christine Rolke é nutricionista (CRN 24102380), cirurgiã-dentista, mestre em Imunologia pela UNIFESP, Educadora em Diabetes pela ADJ/SBD e professora do curso de Medicina da Universidade Vila Velha (UVV). Mãe da Livia, diagnosticada com diabetes tipo 1 aos 13 meses, criou o Mãe Pâncreas em 2018 para levar educação em diabetes tipo 1 a famílias de crianças com DM1.

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