Contagem de carboidratos no diabetes tipo 1: o guia da família pra contar sem medo

Em uma frase

Contagem de carboidratos é somar os gramas de carboidrato de tudo o que a criança vai comer numa refeição e usar esse número, junto com a razão insulina:carboidrato que a equipe prescreveu, pra calcular a dose de insulina rápida. Quem conta bem come de tudo, inclusive bolo na festa, com a glicemia dentro da meta. Este guia ensina a contar: medida caseira, rótulo, tabela e balança, com exemplos de prato real.

Quando a Livia foi diagnosticada, com 13 meses, eu saí do hospital com uma receita. Só isso. Ninguém me explicou o que era aquela receita, ninguém falou de contagem de carboidratos, ninguém disse o que ela podia ou não comer. Eu fui pra casa com uma criança de um ano e a sorte. Eu já era professora universitária, acostumada a estudar, e fiz o que sabia fazer: no dia seguinte estava lendo as diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes. Foi assim que eu descobri que a criança com diabetes tipo 1 come a mesma comida de qualquer criança saudável, e que o que muda é a família aprender a contar o que ela come. Desse estudo nasceram os cursos, o Instagram e o YouTube do Mãe Pâncreas, e só depois a graduação em Nutrição. Eu sou a Christine, nutricionista, educadora em diabetes, professora de Medicina, e mãe de criança com diabetes tipo 1 há mais de dez anos. Este texto é a aula de contagem de carboidratos que eu queria ter recebido na alta.

Ele é pra quem está começando (contar do zero, sem saber por onde) e pra quem já conta e erra sem entender por quê. Se a sua criança acabou de ser diagnosticada, vale ler antes o guia do diabetes tipo 1 infantil, que explica o que é a doença e como a insulina funciona.

Por que contar carboidrato

Vamos começar pelo mecanismo, porque quem entende o porquê conta melhor.

Dos três nutrientes que dão energia (carboidrato, proteína e gordura), o carboidrato é o que vira glicose no sangue mais rápido e em maior quantidade: praticamente 100% dele vira glicose, entre 15 minutos e 2 horas depois de comer. A proteína e a gordura também mexem na glicemia, mas bem menos e bem mais devagar. Então, na hora de decidir quanto de insulina rápida a criança precisa pra uma refeição, o que manda é o carboidrato.

No corpo de quem não tem diabetes, o pâncreas mede isso sozinho: comeu mais carboidrato, libera mais insulina. No diabetes tipo 1, esse trabalho passa pra família. A contagem de carboidratos é o jeito de fazer isso com precisão em vez de no chute. A Diretriz da SBD 2026 e a ISPAD 2022 colocam a contagem como o método de escolha pra quem usa insulina em esquema basal-bolus ou bomba, porque é o que permite a criança comer conforme a fome, o horário e a rotina dela, e não conforme uma dose fixa.

Na prática, contar carboidrato muda três coisas na vida da família:

  • A comida deixa de ser proibida. Bolo de aniversário, pipoca do cinema, pão de queijo da avó. Tudo tem número. Se tem número, tem dose.
  • A glicemia depois de comer fica previsível. A maior parte dos picos pós-refeição que eu vejo nos gráficos das famílias que acompanho não é “descontrole”: é carboidrato subestimado.
  • A criança cresce comendo o que a família come. Isso importa pro crescimento, pra relação dela com a comida e pra ninguém ter que cozinhar duas vezes.

Uma coisa que eu digo em toda primeira consulta: contar carboidrato é uma habilidade, como dirigir. No começo você pensa em cada movimento; depois de alguns meses, você olha pro prato e sabe. Errar no começo faz parte. O que a gente quer é errar cada vez menos.

O que tem carboidrato (e o que não tem)

Aqui muita mãe se perde, porque “carboidrato” na cabeça da gente é pão e macarrão. É mais do que isso.

Tem carboidrato e conta:

  • Cereais e derivados: arroz, pão, macarrão, aveia, milho, cuscuz, tapioca, biscoito, bolo.
  • Tubérculos e raízes: batata, mandioca (aipim), batata-doce, inhame, cará.
  • Leguminosas: feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha. Menos do que o arroz, mas contam.
  • Frutas, todas, inclusive as “que não são doces”. Uma laranja tem carboidrato; um suco de laranja tem o de três laranjas.
  • Leite e iogurte: o leite tem lactose, que é açúcar. Queijo praticamente não tem.
  • Açúcar, mel, melado, e tudo o que leva eles: doce, refrigerante comum, achocolatado, suco de caixinha.
  • Legumes com amido em quantidade maior: abóbora, beterraba, cenoura cozida. Em porção pequena, quase nada; em porção grande, conta.

Praticamente não tem carboidrato (na porção comum, não entra na conta):

  • Carnes, frango, peixe, ovo.
  • Queijos, manteiga, óleo, azeite.
  • Verduras e folhas: alface, rúcula, couve, brócolis, pepino, tomate, abobrinha. Se a criança comer uma tigela de brócolis, aí sim tem alguns gramas; no prato do dia a dia, a gente ignora.

Repare que proteína e gordura estão na lista do “não conta”. Isso é verdade pra contagem básica, que é o que este guia ensina e o que resolve 90% das refeições. Refeições muito gordurosas ou muito proteicas (pizza, lasanha, churrasco, um prato cheio de carne sem arroz) sobem a glicemia horas depois, e existe um jeito de contar isso também. É contagem avançada, e eu ensino no curso Contagem na Prática. Primeiro o básico.

Os quatro jeitos de contar

Existe uma escada, e cada família sobe no ritmo dela.

1. Balança. É o mais preciso. Pesa o alimento cru ou cozido (depende de como está na tabela), olha na tabela quanto carboidrato tem em 100 g, faz a regra de três. Parece trabalhoso, e no começo é. Mas é o que treina o olho. Eu recomendo pesar tudo nos primeiros dois ou três meses, e depois pesar de vez em quando pra conferir se o olho não desregulou. A balança de cozinha digital custa pouco e é o equipamento de diabetes mais barato que você vai comprar.

2. Medida caseira. Colher de sopa, concha, xícara, fatia, unidade. É o que o Manual de Contagem de Carboidratos da SBD usa, e é como a gente conta no dia a dia depois que treinou. A regra que eu ensino é: defina as medidas da sua casa. A colher de servir arroz da sua cozinha, a concha do seu feijão, o copo que a criança usa. Pese uma vez o que cabe em cada uma, anote, e pronto: você tem a sua tabela pessoal.

3. Rótulo. Em alimento industrializado, o rótulo é a fonte. Desde 2022 a tabela nutricional no Brasil é obrigada a mostrar os valores por 100 g ou 100 ml e por porção, e a porção vem escrita (“1 unidade de 30 g”, “2 biscoitos”). O que você olha é a linha “Carboidratos” (total). “Açúcares totais” e “açúcares adicionados” estão dentro dela, não somam à parte. Fibra também está dentro; na contagem básica a gente não desconta.

4. Estimativa visual. Olhar o prato e saber. É onde toda família chega, e é o que a criança vai fazer sozinha na adolescência. Só funciona depois de muito tempo pesando e medindo, e mesmo assim a gente erra em porção grande e em comida de fora. Quando eu não tenho como medir (festa, restaurante, casa de amigo), eu estimo e confiro a glicemia duas horas depois. Se subiu demais, da próxima vez eu sei que aquela porção era maior do que parecia.

Onde achar o número

Tabela é a ferramenta; qual tabela importa.

  • TBCA, a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos, da USP. É a referência brasileira mais completa e atualizada, gratuita, online (tbca.net.br). Tem mais de 5.000 alimentos, com preparações prontas (arroz cozido, feijão cozido, bolo pronto), o que evita a conta do cru pro cozido.
  • TACO, da UNICAMP. Mais antiga, menos alimentos, mas ainda muito usada; muita tabela de aplicativo vem dela.
  • Manual de Contagem de Carboidratos da SBD. É o material feito pra quem tem diabetes: alimentos em medida caseira, prontos pra usar. É o que eu uso nas aulas e é gratuito no site da Sociedade Brasileira de Diabetes.
  • Rótulo, pra industrializado, como eu disse acima.
  • Tabela das redes (McDonald’s, Burger King, Habib’s e outras), no site de cada uma. Fast-food tem número exato; é mais fácil contar um lanche de rede do que um prato feito de restaurante.

O que não serve de fonte: número que alguém mandou no grupo, “cerca de” de vídeo de influenciador, e aplicativo que não diz de onde tirou o dado. Se você usa aplicativo, veja se ele cita TBCA, TACO ou rótulo.

Conversa no Telegram com o GlicemIA: o bot lista o carboidrato de cada item da refeição e o total, e pede confirmação

Não achou o alimento na tabela? Pergunta pro GlicemIA.

É o assistente que eu criei pra quem vive com diabetes tipo 1, no Telegram. Você escreve a refeição (“1 pão de queijo e 1 copo de suco de laranja”) e ele responde item por item, com o total em gramas, usando uma base de mais de 650 alimentos que eu revisei. Com a razão, o fator e o alvo que a equipe prescreveu cadastrados, ele também faz a conta do bolus e o resgate de hipoglicemia. Ele não cria nem ajusta parâmetro: só reproduz a conta com os números que você cadastrar.

É gratuito no Telegram, sem cartão e sem prazo; o cadastro leva menos de dois minutos. Abrir o GlicemIA no Telegram.

Tabela: carboidrato dos alimentos do dia a dia

Esta é a tabela que eu montaria pra grudar na geladeira de uma família recém-diagnosticada. São os alimentos que mais aparecem no prato de criança brasileira, em medida caseira, com o carboidrato arredondado. Os valores vêm da TBCA, da TACO e do Manual da SBD; a porção é a de referência do Manual. Sua colher, seu pão e sua banana podem ser maiores ou menores: por isso a coluna dos gramas, pra você pesar e ajustar.

AlimentoPorção caseiraPeso aproximadoCarboidrato
Arroz branco cozido1 colher de sopa cheia25 g7 g
Arroz branco cozido1 colher de servir (arroz)45 g13 g
Feijão cozido (grão com caldo)1 concha média80 g11 g
Macarrão cozido1 pegador (escumadeira)110 g22 g
Batata inglesa cozida1 unidade média140 g17 g
Batata frita1 porção pequena100 g35 g
Mandioca (aipim) cozida1 pedaço médio80 g24 g
Batata-doce cozida1 fatia média80 g15 g
Pão francês1 unidade50 g29 g
Pão de forma1 fatia25 g12 g
Pão de queijo1 unidade média30 g10 g
Biscoito maisena1 unidade5 g4 g
Biscoito cream cracker1 unidade6 g4 g
Aveia em flocos1 colher de sopa15 g10 g
Bolo simples (sem cobertura)1 fatia média60 g33 g
Banana prata1 unidade média70 g15 g
Banana nanica1 unidade média85 g20 g
Maçã1 unidade média130 g20 g
Laranja pera1 unidade média130 g (polpa)15 g
Mamão papaia1 fatia média170 g17 g
Melancia1 fatia média200 g16 g
Uva10 bagos80 g13 g
Manga½ unidade média100 g20 g
Leite integral1 copo200 ml9 g
Iogurte natural integral1 pote170 g8 g
Iogurte de fruta (com açúcar)1 pote170 g25 g
Suco de laranja natural1 copo200 ml21 g
Refrigerante comum1 copo200 ml21 g
Açúcar1 colher de chá cheia5 g5 g

Três avisos sobre a tabela. Primeiro: arredondado é bom o suficiente. A diferença entre 13 g e 13,4 g não muda dose nenhuma. Segundo: a porção é a variável. “1 colher de sopa cheia” de arroz na TBCA tem 25 g; a colher de sopa cheia lá de casa, quando eu pesei, tinha 32 g. Pese a sua. Terceiro: cozido e cru são números diferentes. Arroz cru tem quase 80 g de carboidrato em 100 g; cozido, uns 28 g, porque absorveu água. Sempre veja se a tabela diz cru ou cozido.

Três pratos resolvidos

Agora a conta de verdade. Vou fazer do jeito que eu ensino nas consultas: item por item, somando no fim, e anotando como cheguei em cada número.

Almoço de criança de 6 anos. 2 colheres de sopa cheias de arroz, 1 concha pequena de feijão (meia concha média), 1 coxa de frango assada, salada de alface e tomate, 1 banana prata de sobremesa.

ItemComo conteiCarboidrato
Arroz, 2 colheres de sopa cheias2 × 7 g14 g
Feijão, meia conchametade de 11 g, arredondado6 g
Coxa de frangoproteína, não conta0
Alface e tomatenão conta0
Banana prata, 1 unidadetabela15 g
Total da refeição35 g

Lanche da escola. 1 pão de forma com queijo (2 fatias de pão), 1 caixinha de suco de uva integral de 200 ml (rótulo: 28 g de carboidrato por 200 ml), 1 maçã pequena (100 g).

ItemComo conteiCarboidrato
Pão de forma, 2 fatias2 × 12 g24 g
Queijonão conta0
Suco de uva, 200 mlrótulo28 g
Maçã pequena, 100 g130 g tem 20 g; regra de três15 g
Total da refeição67 g

Repare que o suco sozinho tem mais carboidrato do que o pão com queijo. Esse é o tipo de lanche que faz pico na escola, e o suco é o motivo. Trocar por água e comer a maçã inteira dá 39 g e uma glicemia bem mais fácil.

Festa de aniversário. 1 fatia de bolo com cobertura, 3 pães de queijo pequenos (20 g cada), 1 copo de refrigerante de 200 ml, 2 brigadeiros.

ItemComo conteiCarboidrato
Bolo com cobertura, 1 fatiafatia simples de 60 g tem 33 g; a cobertura acrescenta uns 10 g43 g
Pão de queijo, 3 de 20 g30 g tem 10 g, então 20 g tem 7 g; 3 × 721 g
Refrigerante, 200 mltabela21 g
Brigadeiro, 2 unidadescerca de 12 g cada (TBCA)24 g
Total da refeição109 g

É muito, e é real. Festa é onde mais se erra pra menos, porque a gente conta o bolo e esquece o resto. A minha regra em festa: contar antes de a criança comer, dar a dose, e medir duas horas depois. Se você não sabe o carboidrato de alguma coisa da mesa, pergunte pro GlicemIA na hora, pelo Telegram; é pra isso que eu fiz ele.

Uma observação sobre esses totais: a ISPAD considera que um erro de até 10 g de carboidrato pra mais ou pra menos, na maioria das refeições, não tira a glicemia da meta. Ou seja, o objetivo não é acertar o grama; é não errar por 30.

Razão insulina:carboidrato

Você contou: 35 g de carboidrato no almoço. E agora, quanto de insulina?

É aqui que entra a razão insulina:carboidrato, que a sua equipe chama de RIC, I:C ou “relação”. Ela diz quantos gramas de carboidrato uma unidade de insulina rápida cobre na sua criança. É um número individual: depende do peso, da idade, da fase do diabetes (na lua de mel é uma razão; um ano depois, outra), da hora do dia (muita criança precisa de mais insulina por grama no café da manhã do que no jantar) e até do exercício do dia. Quem define e ajusta é a equipe médica, olhando as glicemias. Não é número de tabela e não é número de outra criança. Como a razão e o fator entram no esquema basal e bolus, e o que muda entre caneta e bomba, está no guia de insulina no diabetes tipo 1.

A conta é uma divisão: carboidrato da refeição ÷ razão = unidades de insulina pra refeição. Só isso. O que muda entre uma família e outra é o divisor, que vem da prescrição.

Um exemplo com número inventado, só pra mostrar a conta: se a razão prescrita fosse “1 unidade pra cada 15 g” e o almoço tem 60 g, a dose de refeição seria 60 ÷ 15 = 4 unidades. Se a razão fosse 1 pra 10, a mesma refeição pediria 6 unidades. A refeição é a mesma; o que muda é a criança. Por isso não existe “quanto de insulina pra um pão francês”: existe quanto de insulina pra um pão francês na sua criança, com a razão dela, hoje.

Duas coisas que a família precisa saber sobre a razão:

  • Ela muda, e é normal. Criança cresce, entra em lua de mel e sai, começa a nadar, entra na puberdade. Se a glicemia depois das refeições passou a subir demais mesmo com a contagem certa, a razão pode precisar de ajuste. Isso é conversa com a equipe, com os dados na mão (glicemias antes e 2 horas depois de comer, e o que foi contado).
  • Erro de contagem parece erro de razão. Antes de pedir ajuste de dose, confira a contagem por uma semana pesando tudo. Eu já vi muita razão ser mudada por causa de uma colher de arroz que era maior do que a mãe pensava.

Fator de sensibilidade

A razão cobre a comida. O fator de sensibilidade (FS, ou fator de correção) cobre a glicemia que já estava alta antes de comer. Ele diz quantos mg/dL uma unidade de insulina rápida derruba na sua criança. Também é individual, também é prescrito pela equipe, e também muda com o tempo.

A conta, em palavras: a diferença entre a glicemia atual e a glicemia-alvo, dividida pelo fator, dá as unidades de correção. Essa correção se soma à dose da refeição. E, se a criança aplicou insulina rápida há menos de 3 ou 4 horas, ainda tem insulina agindo (a insulina ativa, que a bomba e alguns aplicativos calculam), e ela entra na conta diminuindo a correção, senão a gente empilha dose e faz hipoglicemia. Eu explico a insulina ativa com mais detalhe no guia de hipoglicemia.

Então o bolus completo de uma refeição tem três partes: refeição (carboidrato ÷ razão) + correção (glicemia acima do alvo ÷ fator) − insulina ativa. É essa conta que a bomba faz sozinha, que a caneta inteligente faz, e que o GlicemIA faz com os parâmetros que você cadastrou, sem que a IA invente número: a dose sai de uma conta fixa e testada, a IA só conversa com você e reúne os dados. Se você faz na cabeça ou no papel, tudo bem também; a maioria das famílias que eu acompanho fez assim por anos. O importante é fazer as três partes.

Os erros que eu mais vejo

Depois de mais de dez anos contando em casa e de centenas de famílias acompanhadas, os erros se repetem. Confira se algum é seu.

1. Contar só o “principal”. Conta o arroz e esquece o feijão; conta o pão e esquece o suco; conta o bolo e esquece o refrigerante. O carboidrato “escondido” de uma refeição costuma ser entre 10 e 30 g, e é exatamente a diferença entre 140 e 220 duas horas depois.

2. Porção no olho antes de treinar o olho. Estimativa visual funciona depois de meses de balança. Antes disso, a gente subestima porção grande e superestima porção pequena, sempre.

3. Confundir cru com cozido, e “por 100 g” com “por porção”. No rótulo, olhe se o valor é por 100 g ou pela porção, e qual é o tamanho da porção. Um pacote de biscoito diz “porção de 30 g (6 biscoitos)”: se a criança comeu 12, dobra.

4. Descontar fibra, ou o “zero açúcar”. Na contagem básica, carboidrato total é o número. Biscoito “sem açúcar” tem farinha, que é carboidrato. Chocolate diet tem carboidrato. Leia a linha “Carboidratos”.

5. Ignorar o líquido. Suco natural, suco de caixinha, refrigerante, leite com achocolatado, água de coco. Líquido sobe a glicemia mais rápido do que a insulina consegue acompanhar, e por isso, além de contar, vale trocar por água na maior parte do dia.

6. Esperar demais ou de menos. Contagem certa com insulina aplicada na hora errada dá pico do mesmo jeito. A insulina ultrarrápida começa a agir em 10 a 15 minutos; o carboidrato começa a subir a glicemia em uns 10. Aplicar antes de comer (o tempo é combinado com a equipe, e depende da glicemia de antes) é tão importante quanto contar certo. É o assunto de metade das dúvidas do curso Contagem na Prática: contar é a primeira parte; quando aplicar, e como ler a seta do sensor pra decidir, é a segunda.

7. Tratar gordura e proteína como se não existissem, em refeição que é só isso. Pizza, lasanha, churrasco com pão de alho, feijoada. A glicemia sobe 3, 4, 5 horas depois, e a família acha que “errou a contagem”. Não errou: é outra conta, que existe e se aprende.

Contagem com criança pequena

Bebê e criança pequena são um capítulo à parte, e eu vivi esse capítulo.

A dificuldade é que a criança pequena não come o que a gente serviu. Come metade, cospe, quer mais, não quer nada. E a insulina já foi. O que a ISPAD orienta, e o que eu fiz com a Livia: em criança muito pequena ou imprevisível, a equipe pode liberar aplicar depois da refeição, contando o que ela de fato comeu, ou dividir a dose (uma parte antes, o resto quando dá pra ver o prato). Isso é combinado com a equipe, não decidido em casa.

Outras coisas que ajudam nessa fase:

  • Servir porções contadas. Em vez de “um prato de arroz”, 2 colheres de sopa cheias, que você sabe que dão 14 g. O que sobrou no prato, você desconta.
  • Ter sempre um carboidrato “de reserva” que ela aceita. Se ela não comeu o arroz mas a insulina já entrou, banana, suco ou iogurte de fruta completam o que faltou. Isso é o kit de hipoglicemia usado antes da hipoglicemia.
  • Mamadeira e leite contam. 200 ml de leite integral são 9 g; com achocolatado, 20 g ou mais. Muita hiperglicemia da manhã em criança pequena é a mamadeira que ninguém contou.
  • Deixar a criança participar. A Livia pesava a banana dela aos 8 anos porque pesava comigo desde os 3. Criança que cresce contando conta sozinha na adolescência sem drama. A autonomia começa na balança.

Por onde continuar

Se você leu até aqui, você sabe o método. O que falta é treino, e treino de contagem não se faz lendo: se faz resolvendo refeição atrás de refeição e conferindo a resposta. O curso Contagem na Prática é exatamente isso: a teoria completa (carboidrato, gordura e proteína) e dezenas de exercícios com resolução comentada, com acesso por um ano.

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Pra tirar dúvida de alimento no meio da rotina, o GlicemIA no Telegram responde o carboidrato de qualquer refeição e, com os parâmetros prescritos, faz a conta do bolus. É gratuito.

Se você está no começo, a Trilha DM1 gratuita tem um módulo inteiro de alimentação. E se quer alguém olhando pros gráficos da sua criança e montando a tabela de medidas da sua casa, eu atendo online famílias de todo o Brasil no acompanhamento nutricional em diabetes.

Um abraço. Vai dar certo.

Perguntas frequentes

O que é contagem de carboidratos?

É o método de somar os gramas de carboidrato de uma refeição pra calcular a dose de insulina rápida correspondente, usando a razão insulina:carboidrato prescrita pela equipe. É o método de escolha da SBD e da ISPAD pra quem usa insulina basal-bolus ou bomba, porque permite comer conforme a fome e a rotina.

Criança com diabetes tipo 1 pode comer doce?

Pode, com a dose de insulina calculada pelo carboidrato do doce. Não existe alimento proibido no diabetes tipo 1; o que se evita no dia a dia é açúcar líquido (suco, refrigerante), porque sobe a glicemia mais rápido do que a insulina acompanha. Doce em festa, contado, é parte normal da vida da criança.

Quanto carboidrato tem um pão francês?

Um pão francês de 50 g tem cerca de 29 g de carboidrato (TBCA/TACO). Um pão de forma de 25 g, cerca de 12 g. O peso varia de padaria pra padaria: pese o seu uma vez.

Preciso pesar tudo pra sempre?

Não. A balança é pra treinar o olho nos primeiros meses e pra conferir de vez em quando. Depois, a maioria das famílias conta por medida caseira (colher, concha, fatia, unidade) e por rótulo, com boa precisão. A ISPAD considera aceitável um erro de até 10 g por refeição.

Qual é a diferença entre razão insulina:carboidrato e fator de sensibilidade?

A razão diz quantos gramas de carboidrato uma unidade de insulina cobre e serve pra calcular a dose da refeição. O fator de sensibilidade diz quantos mg/dL uma unidade derruba e serve pra calcular a correção quando a glicemia está acima do alvo. Os dois são individuais, prescritos e ajustados pela equipe médica.

Proteína e gordura contam?

Na contagem básica, não: praticamente não viram glicose nas primeiras duas horas. Em refeições muito gordurosas ou proteicas (pizza, lasanha, churrasco), elas sobem a glicemia horas depois e existe um método de contagem avançada pra isso, ensinado no curso Contagem na Prática e combinado com a equipe.

Qual tabela de carboidratos usar?

No Brasil, a TBCA (USP), a TACO (UNICAMP) e o Manual de Contagem de Carboidratos da SBD, que traz os alimentos em medida caseira. Pra industrializado, o rótulo. Pra fast-food, a tabela nutricional do site da rede.

Existe aplicativo ou bot que conta carboidrato?

Sim. O GlicemIA, assistente no Telegram criado pela nutricionista Christine Rolke, responde o carboidrato de qualquer refeição descrita em texto e, com a razão, o fator de sensibilidade e o alvo prescritos cadastrados, calcula o bolus (refeição, correção e insulina ativa) e orienta o resgate de hipoglicemia. É gratuito no Telegram e não cria nem ajusta parâmetros: reproduz a conta com os números da prescrição.

Fontes

  • Sociedade Brasileira de Diabetes. Manual de Contagem de Carboidratos para Pessoas com Diabetes. São Paulo: SBD; 2016. https://diabetes.org.br/
  • Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz da SBD, edição 2026. Capítulos “Terapia nutricional no diabetes tipo 1” e “Peculiaridades do tratamento da criança com DM1”. https://diretriz.diabetes.org.br/
  • Universidade de São Paulo, Food Research Center (FoRC). Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TBCA), versão 7.2. https://www.tbca.net.br/
  • Universidade Estadual de Campinas, NEPA. Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO), 4ª edição. Campinas: UNICAMP; 2011.
  • Annan SF, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Nutritional management in children and adolescents with diabetes. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1297-1321.
  • American Diabetes Association. Facilitating Positive Health Behaviors and Well-being to Improve Health Outcomes: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). https://doi.org/10.2337/dc26-S005
  • ANVISA. Instrução Normativa nº 75/2020 e RDC nº 429/2020 (rotulagem nutricional de alimentos embalados).
Christine Rolke

Texto escrito por Christine Rolke, nutricionista (CRN 24102380), mestre em Imunologia, educadora em diabetes e mãe de criança com diabetes tipo 1. Conheça a minha história.

Revisado em 16/09/2026. Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação da equipe que acompanha a sua criança. Razão insulina:carboidrato, fator de sensibilidade, alvo e tempo de aplicação são sempre individuais e definidos pela equipe médica.
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