
Diabetes tipo 1 infantil é uma doença autoimune: o sistema de defesa da criança destrói as células do pâncreas que produzem insulina, e sem insulina a glicose não entra nas células. O tratamento é repor essa insulina todos os dias, pra vida toda, e aprender a ajustar dose, comida e rotina. Não foi causado por açúcar, não foi causado por nada que você fez, e a sua criança pode crescer saudável.

Se você chegou aqui com o diagnóstico ainda fresco, eu sei mais ou menos como você está. Eu sou a Christine, nutricionista, educadora em diabetes, professora de Medicina, e mãe da Livia, que recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 1 com 13 meses de idade. Este texto é o que eu gostaria de ter lido naquela semana. Não é uma aula completa (a Trilha DM1, que é gratuita, faz isso em cinco módulos). É o mapa: o que está acontecendo no corpo, o que muda daqui pra frente e o que a família precisa aprender primeiro.
O que é o diabetes tipo 1
Você quer entender de verdade o que aconteceu no corpo da sua criança? Então vale gastar dois minutos aqui, porque tudo o que vem depois (insulina, contagem de carboidratos, metas) faz mais sentido quando a gente entende o mecanismo.
A insulina é um hormônio produzido pelas células beta, que ficam no pâncreas. A função dela é abrir a porta das células pra glicose entrar. Sem insulina, a glicose fica presa no sangue: a glicemia sobe, e ao mesmo tempo as células ficam sem energia. É por isso que uma criança com a glicemia em 400 pode estar com fome e emagrecendo. Tem combustível de sobra no sangue, mas ele não chega onde precisa.
No diabetes tipo 1, quem destrói as células beta é o próprio sistema imunológico. Eu sou mestre em Imunologia e gosto de explicar assim: o nosso corpo produz linfócitos, que são células treinadas pra reconhecer o que é estranho (vírus, bactéria) e atacar. Durante a formação de cada linfócito existe um controle de qualidade, tipo ISO 9000: o linfócito que reconhece uma parte do próprio corpo como “estranha” deveria ser eliminado ali. Só que às vezes um deles passa nesse controle, vai pra circulação e começa a atacar as células beta. Esse ataque é silencioso e pode levar meses ou anos. Quando as células beta que sobraram não dão mais conta da insulina que o corpo precisa, os sintomas aparecem.
Isso é diferente do diabetes tipo 2, que é o tipo que a maioria das pessoas conhece. No tipo 2 o pâncreas produz insulina, mas o corpo responde mal a ela (resistência à insulina), e está muito ligado a idade, peso e estilo de vida. No tipo 1 o problema é falta de insulina, por destruição autoimune. Por isso o tratamento do tipo 1 é insulina desde o primeiro dia, e nenhuma dieta, chá ou exercício substitui isso.
Uma coisa que eu faço questão de dizer pras mães: a minha filha não é doente. Ela tem uma condição crônica que exige cuidado diário, mas ela é saudável, cresce, faz esporte, vai à escola. Quando você ouvir “criança doente”, pode corrigir.
Por que a minha criança?
Essa é a pergunta que toda mãe faz, e a resposta honesta da ciência é: a gente não sabe exatamente. O que se sabe é que o diabetes tipo 1 é multifatorial. Existe uma predisposição genética (alguns genes do sistema HLA aumentam o risco), e existe algum gatilho ambiental que ainda não foi identificado com certeza; infecções virais são os candidatos mais estudados.
O que NÃO causa diabetes tipo 1:
- Açúcar, doce, refrigerante. Não tem nenhuma relação. O tipo 1 é autoimune.
- Susto, briga, trauma emocional. Estresse pode ter deixado os sintomas mais visíveis, mas não destrói célula beta.
- Algo que você deu ou deixou de dar na gravidez ou na amamentação.
E a genética? Ela pesa, mas menos do que parece. A maioria das crianças com diabetes tipo 1 (em torno de 85 a 90%) não tem nenhum parente de primeiro grau com a doença. O meu marido carregou culpa por anos achando que tinha passado “o gene”, porque a irmã dele tem diabetes tipo 1 desde os 3 anos. Não funciona assim: ter um parente aumenta a chance, mas a maior parte dos casos aparece em famílias sem histórico nenhum.
No Brasil, segundo o IDF Diabetes Atlas, são cerca de 92 mil crianças e adolescentes até 19 anos vivendo com diabetes tipo 1. É o terceiro país do mundo em número de casos nessa faixa etária, atrás só da Índia e dos Estados Unidos. Você não está sozinha, nem de longe.
Os sinais que levaram ao diagnóstico
Talvez você esteja lendo isso porque desconfia, e ainda não tem o diagnóstico. Então vou contar como foi com a gente.
A Livia tinha 13 meses. Ela comia muito, mamava muito, e a babá comentava que a fralda vazava de tanto xixi, em pouco tempo. Eu, como a maioria das mães, achava que criança comer bem e beber bastante água era sinal de saúde. Até o dia em que ela bebeu 500 ml de água de uma vez. Foi o clique. Comprei um glicosímetro e deu 450 mg/dL, quando o normal é abaixo de 100.
Os sinais clássicos são quatro, e eles aparecem porque a glicose alta no sangue “puxa” água:
- Muito xixi (poliúria). Acima de mais ou menos 180 mg/dL, o rim não consegue segurar a glicose e ela sai na urina, levando água junto. Na criança pequena isso aparece como fralda encharcada, e na criança maior como voltar a fazer xixi na cama.
- Muita sede (polidipsia). O corpo tenta repor a água que está perdendo.
- Muita fome (polifagia) com emagrecimento. As células estão sem energia, então o cérebro pede comida; e sem insulina o corpo começa a queimar gordura e músculo.
- Cansaço, irritação, sono.
Quando isso passa despercebido por mais tempo, a criança pode chegar ao hospital em cetoacidose diabética: respiração rápida e profunda, hálito adocicado (de acetona), vômito, dor de barriga, sonolência. É uma emergência. No Brasil, cerca de metade das crianças ainda recebem o diagnóstico já em cetoacidose: um estudo em hospital de referência em Campina Grande encontrou 46% entre 2009 e 2019, e um serviço de referência em Santa Catarina encontrou 59% entre 2018 e 2021. Isso acontece porque os sintomas são confundidos com virose, com “fase de crescer” ou com infecção urinária.
Se a sua criança tem esses sinais, peça uma glicemia hoje. Um glicosímetro de farmácia resolve a triagem em cinco segundos. Uma glicemia casual acima de 200 mg/dL com sintomas já fecha o diagnóstico, segundo a SBD e a ADA.
Os três estágios do diabetes tipo 1
Desde 2015 o diabetes tipo 1 é descrito em estágios, e isso mudou como a gente pensa a doença:
| Estágio | O que está acontecendo | Sintomas |
|---|---|---|
| 1 | Dois ou mais autoanticorpos positivos, glicemia normal | Nenhum |
| 2 | Autoanticorpos positivos e glicemia já alterada (disglicemia) | Nenhum ou muito discretos |
| 3 | Glicemia alta o suficiente pra dar diagnóstico clínico | Os quatro sinais acima; é aqui que quase todo mundo descobre |
Por que isso importa pra você, que já está no estágio 3? Por dois motivos.
Primeiro, pelos irmãos. Irmãos de uma criança com diabetes tipo 1 têm risco maior (em torno de 5%, contra 0,4% da população geral), e a dosagem dos autoanticorpos (anti-GAD, anti-IA2, anti-ZnT8, anti-insulina) consegue identificar quem está nos estágios 1 ou 2 antes de qualquer sintoma. A Diretriz da SBD 2026 tem um capítulo só sobre rastreamento de autoanticorpos em familiares. Quem é identificado cedo praticamente nunca chega em cetoacidose, porque a família já está acompanhando. Vale conversar com a endocrinologista sobre rastrear os irmãos.
Segundo, porque em 9 de março de 2026 a Anvisa aprovou o teplizumabe (Tzield), o primeiro medicamento que modifica o curso do diabetes tipo 1: em pessoas no estágio 2, a partir de 8 anos, ele consegue atrasar em média dois anos a chegada do estágio 3. Ele não serve pra quem já está no estágio 3, não é cura e ainda não está no SUS. Mas é o primeiro passo de uma direção nova, e é mais um motivo pra rastrear os irmãos.
O tratamento: insulina é vida
Aqui eu preciso ser direta, porque a mensagem que a criança recebe nas primeiras semanas fica pra sempre: insulina não é castigo, não é remédio de “quando piora”, não é sinal de que a gente falhou. Todo ser humano usa insulina o dia inteiro; a diferença é que o corpo da sua criança parou de produzir, então a gente repõe por fora. Cuidado com a fala em casa. Quando a avó diz “coitadinha, tem que tomar injeção”, a criança aprende que insulina é ruim.
Insulina não é castigo. Insulina é vida.
O esquema recomendado pra crianças de todas as idades, pela SBD e pela ISPAD, é a insulinoterapia intensiva, que imita o que o pâncreas fazia:
- Insulina basal: uma insulina de ação longa (glargina, detemir, degludeca) aplicada uma ou duas vezes ao dia, ou a NPH em mais aplicações. Cobre a necessidade de fundo, mesmo em jejum.
- Insulina de bolus: uma insulina rápida ou ultrarrápida (lispro, asparte, glulisina, e as versões mais rápidas como Fiasp e Lyumjev) antes de cada refeição, calculada pela quantidade de carboidrato que a criança vai comer, mais uma correção se a glicemia estiver acima da meta.
Isso pode ser feito com canetas (múltiplas aplicações diárias) ou com bomba de insulina, que infunde só insulina rápida o tempo todo, em doses minúsculas. A Diretriz da SBD 2026 recomenda a bomba como método de preferência pra crianças menores de 7 anos, porque nessa idade as doses são muito pequenas e a bomba consegue entregar 0,025 unidade, coisa que nenhuma caneta faz. Quando não há bomba, a recomendação é caneta de meia unidade ou insulina diluída. Se a sua criança é pequena e a caneta só marca de 1 em 1 unidade, pergunte sobre isso.
E o sensor de glicose (Libre, Dexcom, Guardian)? A SBD recomenda monitorização intensiva pra todas as idades, e o sensor faz muita diferença na criança pequena, que não sabe dizer que está com hipoglicemia. O sensor mostra a tendência (subindo, descendo, estável), e é essa seta que muda a decisão, não só o número.
Sobre doses: eu não vou colocar aqui “quantas unidades por quilo”, porque a dose é individual e muda com a fase (lua de mel, crescimento, puberdade), com o peso, com a rotina. O que eu ensino é a lógica: a razão insulina/carboidrato (quantos gramas de carboidrato 1 unidade cobre), o fator de sensibilidade (quantos mg/dL 1 unidade abaixa) e a meta. Com esses três números, que a endocrinologista define, a família consegue calcular o bolus de cada refeição. É isso que a Trilha ensina no módulo de insulina.
Lua de mel
Nas primeiras semanas depois que a insulina começa, uma coisa curiosa acontece com a maioria das crianças: a necessidade de insulina cai muito, às vezes quase zera. A gente chama de lua de mel, ou remissão parcial.
O que está acontecendo: no diagnóstico, as células beta que sobraram estavam “atordoadas” pela glicose alta (isso se chama glicotoxicidade). Quando a insulina de fora normaliza a glicemia, essas células descansam e voltam a produzir um pouco. O critério usado pela ISPAD pra dizer que a criança está em remissão parcial é precisar de menos de 0,5 unidade por quilo por dia com hemoglobina glicada abaixo de 7%, ou um índice chamado IDAA1c igual ou menor que 9. Costuma começar dias ou semanas depois do diagnóstico e pode durar até um ano; em crianças pequenas tende a ser mais curta.
Com a Livia durou uns três meses. Eu li relatos de crianças que ficaram mais de um ano e pedi a Deus que ela fosse uma delas. Não foi, e eu usei esses três meses de calmaria pra estudar tudo que eu conseguia. Foi nesse período que o maepancreas começou.
Três coisas importantes sobre a lua de mel:
- Não é cura. A destruição autoimune continua. A insulina residual vai acabar, e a dose vai subir. Se a família não sabe disso, o fim da lua de mel vem como um segundo diagnóstico.
- Não suspenda a insulina por conta própria, mesmo que a criança esteja precisando de muito pouco. Manter uma dose pequena parece ajudar as células beta a durarem mais, e é a endocrinologista quem ajusta.
- Cuidado com a mensagem. Se nesse período a família comemora “ela quase não precisa de insulina!”, a criança entende que precisar de insulina é o fracasso. Quando a lua de mel acaba e ela passa a precisar de várias doses, o que fica é “insulina é ruim”. Comemore a glicemia estável, não a dose baixa.
Metas de glicemia na criança
Quanto é uma boa glicemia pra uma criança com diabetes tipo 1? Aqui as sociedades convergem bastante:
| O que medir | Meta (criança e adolescente com DM1) | Fonte |
|---|---|---|
| Glicemia antes das refeições | 70 a 130 mg/dL | SBD 2026 |
| Glicemia ao deitar | 90 a 150 mg/dL | SBD 2026 |
| Hemoglobina glicada (HbA1c) | abaixo de 7,0%; abaixo de 6,5% quando há sensor/bomba e sem hipoglicemia | SBD 2026 / ISPAD 2024 |
| Tempo no alvo (70 a 180) no sensor | acima de 70% do dia | Consenso TIR 2019 |
| Tempo abaixo de 70 | menos de 4% do dia (menos de 1 hora) | Consenso TIR 2019 |
| Hipoglicemia | abaixo de 70 mg/dL | SBD / ISPAD / ADA |
A SBD faz uma ressalva que eu concordo: a meta de HbA1c abaixo de 7% só deve ser buscada com força quando a família tem tecnologia de monitorização, porque sem sensor a busca por glicada baixa costuma custar hipoglicemias. Por outro lado, a hiperglicemia crônica nos primeiros anos de vida tem efeito no desenvolvimento cerebral, e é por isso que ninguém mais aceita “deixa mais alta que é mais seguro” como regra.
Uma coisa que eu digo em toda aula: a glicemia nunca vai ser uma reta. Criança come de forma irregular, corre, dorme mal, pega virose, cresce. O objetivo é a maior parte do tempo dentro da faixa, não todo o tempo. Uma glicemia de 250 não é fracasso; é uma informação que pede uma ação (correção, checar cetona, olhar o que aconteceu antes).
Eu tenho duas páginas que se aprofundam nisso: a tabela de glicemia, com as metas por momento do dia e um diário glicêmico pra imprimir, e a tabela de hemoglobina glicada, que converte a glicada em glicemia média.
Alimentação: a criança continua comendo como criança
Como nutricionista, essa é a parte em que eu mais vejo sofrimento desnecessário. Muita família sai do hospital achando que a criança nunca mais vai comer bolo de aniversário, e passa a controlar cada grama de comida como se fosse o tratamento. Não é. O tratamento é insulina; a alimentação é ajustada pra insulina, não o contrário.
A base do manejo alimentar no diabetes tipo 1 é a contagem de carboidratos: a família aprende a estimar quantos gramas de carboidrato tem na refeição e calcula o bolus com a razão insulina/carboidrato. Com isso, a criança pode comer arroz, pão, fruta, macarrão, e sim, bolo na festa, com a dose certa de insulina. O que muda é que a gente passa a pensar antes de comer.
Algumas verdades que eu repito em consulta:
- Não existe “dieta pra diabetes” na criança. A recomendação de macronutrientes pra criança com DM1 é a mesma de qualquer criança saudável. O que a gente evita é o exagero de açúcar líquido (refrigerante, suco de caixinha) porque sobe a glicemia mais rápido do que a insulina consegue acompanhar.
- Crescimento é o melhor termômetro. A SBD recomenda medir peso, altura e IMC em toda consulta, porque a criança que está crescendo bem está sendo bem tratada. Restrição alimentar em nome do controle glicêmico prejudica o crescimento.
- Cuidado com o alimento virar moeda. “Se a glicemia estiver boa você ganha o doce” cria uma relação com a comida que cobra caro na adolescência. Transtornos alimentares são mais frequentes em adolescentes com diabetes tipo 1, e a SBD tem um capítulo específico sobre isso.
- Gordura e proteína também mexem na glicemia, mais devagar (pizza, lasanha, churrasco). Isso é conteúdo de contagem avançada, mas vale saber que existe.
Se a sua criança está com a glicemia difícil de acertar depois das refeições, muitas vezes o problema não é a comida, é a razão insulina/carboidrato desatualizada, ou o tempo de espera entre a insulina e a refeição. Isso é ajuste, não culpa.
Eu atendo online famílias de todo o Brasil no acompanhamento nutricional em diabetes tipo 1, e a maior parte do trabalho da primeira consulta é exatamente isso: tirar a comida do lugar de vilã e colocar a insulina no lugar de ferramenta.
Hipoglicemia, cetonas e dias de doença
Três situações que a família precisa saber resolver antes de precisar. Aqui vai o resumo; cada uma tem texto próprio.
Hipoglicemia (abaixo de 70 mg/dL). É o efeito colateral mais frequente da insulina, e vai acontecer. Sinais: tremor, suor frio, palidez, fome, irritação, choro do nada, moleza. Tratamento na criança consciente: 15 g de carboidrato de absorção rápida (ou 0,3 g/kg em crianças pequenas), esperar 15 minutos, medir de novo, repetir se continuar abaixo de 70. Criança inconsciente ou sem conseguir engolir: glucagon e SAMU (192). O texto completo está em sintomas de hipoglicemia: como reconhecer e o que fazer. Pra prevenir e lidar com a hipo em cada situação (noite, exercício, escola, bebê, glucagon), tem o guia de hipoglicemia em crianças. A minha primeira hipoglicemia como mãe foi de 23 mg/dL, dois dias depois da alta, depois de um médico do pronto-socorro me mandar pra casa dizendo que era virose. Foi o que me fez decidir que eu nunca mais ia depender só do que me dissessem.
Cetonas. Quando falta insulina, o corpo quebra gordura pra gerar energia e produz corpos cetônicos, que são ácidos. Isso vira cetoacidose se não for tratado. Regra prática: glicemia acima de 250 mg/dL por mais de duas horas, ou qualquer glicemia com vômito ou mal-estar, mede cetona (fita de urina ou de sangue). Cetona positiva com vômito, dor de barriga ou respiração acelerada é pronto-socorro. Tenha fitas de cetona em casa desde a primeira semana.
Dias de doença. Febre, virose e infecção sobem a glicemia mesmo com a criança comendo menos, por causa dos hormônios do estresse (cortisol, adrenalina). O erro clássico é reduzir ou suspender a insulina “porque ela não está comendo”. Nunca suspenda a basal. Peça pra equipe um plano de dia de doença por escrito (quanto corrigir, de quanto em quanto tempo medir, quando ir ao hospital). A SBD tem um capítulo só sobre isso.
O que a família precisa aprender nas primeiras semanas
Vou te contar uma coisa que eu demorei pra entender. Nos primeiros dias, uma educadora em diabetes foi na minha casa ensinar a aplicar insulina. Eu, professora universitária, mestre em Imunologia, não conseguia entender nada do que ela explicava. Nada. Não era falta de capacidade; era o meu ego ainda não tendo aceitado a situação o suficiente pra deixar a informação entrar. Se você está sentindo que não consegue aprender, isso é normal, e passa.
Dito isso, existe um conjunto mínimo que alguém da casa precisa dominar antes da alta, e que a Trilha organiza em ordem:
- Aplicar insulina: técnica, locais (barriga absorve mais rápido, coxa mais devagar), rodízio pra não criar lipodistrofia, conservação (a caneta em uso fica em temperatura ambiente, em geral por 28 dias, confira na bula; o estoque fica na geladeira, nunca no congelador nem na porta).
- Medir a glicemia e, se tiver sensor, interpretar a seta de tendência.
- Reconhecer e tratar hipoglicemia, com o kit sempre à mão (balas de glicose, açúcar, glucagon). Todo mundo que cuida da criança aprende isso, inclusive avós e a escola.
- Contar carboidratos nas refeições mais comuns da casa. Não precisa ser perfeito na primeira semana; precisa começar.
- Calcular o bolus: razão insulina/carboidrato e fator de sensibilidade, anotados num lugar visível.
- Medir cetona e saber quando ir ao hospital.
- Registrar. Nas primeiras semanas, anotar glicemia, dose e refeição é o que permite à equipe ajustar. O diário glicêmico em PDF que eu usava com a Livia serve pra isso.
E uma coisa que não está em nenhum protocolo: escolha uma pessoa da família pra ser a segunda que sabe tudo. Se só você sabe cuidar, você não dorme, não adoece, não sai. Isso não se sustenta.
Escola
Deixar a criança na escola pela primeira vez depois do diagnóstico aperta o peito. Eu lembro da primeira vez que deixei a Livia com pessoas que não sabiam cuidar dela. O que ajuda é saber o que a lei garante e chegar com um plano.
A criança com diabetes tipo 1 tem direito de frequentar a escola, de participar de tudo (educação física inclusive), de medir a glicemia e aplicar insulina no ambiente escolar, de comer quando precisar tratar uma hipoglicemia, de beber água e ir ao banheiro sempre que pedir, e de ter o celular por perto quando ele é o visor do sensor. A escola não é obrigada a ter profissional de saúde, mas é obrigada a acolher, a permitir o cuidado e a chamar socorro numa emergência.
O que funciona na prática é um plano de cuidado por escrito, assinado pela equipe médica, com: metas, como tratar hipoglicemia, quando ligar pra família, quando chamar o SAMU. Entregue uma cópia, guarde outra e combine uma reunião curta com a coordenação e com a professora antes do primeiro dia. Em muitos casos a resistência da escola vem de medo, e um plano claro resolve; nos casos em que é má vontade mesmo, o plano vira documento.
Vou escrever uma página só sobre diabetes tipo 1 na escola, com carta modelo. Por enquanto, o material da SBD “Diabetes na escola” é a melhor referência gratuita em português.
O que o SUS oferece
Isso muda de estado pra estado e vale confirmar na sua cidade, mas, em linhas gerais, pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (a “farmácia de alto custo”), a criança com diabetes tipo 1 tem direito a insulinas análogas de ação rápida e de ação prolongada, além das insulinas NPH e regular, glicosímetro, fitas, lancetas e seringas ou agulhas pela atenção básica. É preciso laudo (LME), receita e exames, e o pediatra ou endocrinologista do SUS conhece o fluxo.
Bomba de insulina e sensor de glicose ainda não estão incorporados nacionalmente pelo SUS. A Conitec avaliou a incorporação do sensor de monitorização contínua pra pessoas com diabetes tipo 1 em 2026, com consulta pública que terminou em agosto e recomendação preliminar contrária; alguns estados e municípios (São Paulo capital, por exemplo) já fornecem por lei local. Muitas famílias conseguem por via judicial, com laudo justificando. As associações de diabetes da sua região costumam orientar esse caminho.
O que ninguém conta: o luto do diagnóstico
Eu deixei essa parte por último porque é a que menos aparece nos protocolos, e a que mais define como vão ser os primeiros anos.
Receber o diagnóstico de diabetes tipo 1 de um filho é um luto. Não é morte de ninguém, mas é a morte de uma expectativa, da criança “sem nada”, da rotina que a gente tinha. E luto tem fases. O modelo clássico é o da Elisabeth Kübler-Ross, com cinco; na minha experiência com centenas de mães, e na minha própria, eu adaptei pra sete, porque duas coisas que os pais vivem não cabem nas cinco originais:
- Choque. Os primeiros dias. Você funciona no automático.
- Negação. “O médico está errado, vou pedir outra opinião”, “não quero mais falar disso”. É aqui que a informação não entra, como aconteceu comigo com a educadora. Não se julgue, e não julgue o pai, a avó, quem quer que esteja nessa fase. A dor ainda é grande demais.
- Raiva. Com o médico, com Deus, com o marido, com a criança que não colabora.
- Culpa. “Será que eu não alimentei direito”, “será que foi o doce”, “será que foi um gene meu”, “por que eu não percebi antes”. Nenhuma dessas é verdade, e a última dói mais em quem é da área da saúde. Eu sou.
- Barganha. Promessas, tratamentos milagrosos, “se eu fizer tudo certo ela vai ter lua de mel pra sempre”. Eu me peguei fazendo isso, sabendo exatamente o que era.
- Depressão. Eu tinha planilhas e mais planilhas de glicemia, cadernos onde eu anotava tudo, e olhava pra mão da Livia, pequena demais pro furo na ponta do dedo, pensando em todas as complicações que eu ensinava em sala de aula. Se você está aqui há tempo demais, procure terapia e, se precisar, psiquiatra. Não é vergonha nenhuma. Sem cuidado, isso vira burnout, e burnout de mãe de criança com diabetes é muito comum.
- Aceitação. Não é gostar. É olhar pra uma glicemia de 250 e pensar “o que eu preciso fazer”, em vez de “o que vai acontecer com ela”.
Essas fases não vêm em ordem, não vêm todas, e voltam. E o motivo de eu insistir nisso: a criança absorve o estado emocional de quem cuida dela. Imagina que você está num cruzeiro e o comandante olha pra você com cara de pânico. É assim que a sua criança se sente quando você entra em pânico com um número no glicosímetro. Cuidar de você é parte do tratamento dela, do mesmo jeito que no avião a máscara de oxigênio vai primeiro em você.
O que me ajudou de verdade foi ter outras mães. Por isso existe o nosso grupo de mães no WhatsApp, onde ninguém vai te julgar, porque todo mundo ali já viveu a sua semana.
Por onde começar
Se você leu até aqui, você já está fora do choque. O próximo passo é aprender de forma organizada, no seu tempo. A Trilha DM1 é gratuita, tem cinco módulos (recém-diagnosticado, entendendo a doença, insulina, alimentação, qualidade de vida) e foi feita pra essa semana da sua vida.
Começar a Trilha DM1 (gratuita)Se você quer alguém olhando pro caso da sua criança, com os números dela, eu atendo online famílias de todo o Brasil no acompanhamento nutricional em diabetes.
Um abraço. Vai dar certo.
Perguntas frequentes
Não. É uma doença autoimune crônica e o tratamento é insulina pra vida toda. A lua de mel, quando a necessidade de insulina cai nos primeiros meses, não é cura. Em 2026 a Anvisa aprovou o teplizumabe, que atrasa o início dos sintomas em quem está no estágio 2, mas ele não reverte a doença já instalada.
Não. O diabetes tipo 1 acontece porque o sistema imunológico destrói as células que produzem insulina. Não tem relação com doce, refrigerante ou alimentação. Essa confusão vem do diabetes tipo 2, que é outra doença.
Muito xixi (fralda encharcada, voltar a fazer xixi na cama), muita sede, muita fome com emagrecimento, cansaço e irritação. Se aparecerem, uma glicemia de ponta de dedo na farmácia ou no posto resolve a dúvida no mesmo dia. Acima de 200 mg/dL com sintomas é diagnóstico.
É a fase, logo depois do início da insulina, em que as células beta que sobraram voltam a produzir um pouco e a necessidade de insulina cai. Pode durar até um ano. Não é cura e a insulina não deve ser suspensa por conta própria.
Pode, com a dose de insulina calculada pela contagem de carboidratos. Não existe dieta especial pra criança com diabetes tipo 1; a alimentação é a de uma criança saudável. O que se evita é açúcar líquido em excesso, porque sobe a glicemia mais rápido do que a insulina acompanha.
Antes das refeições, de 70 a 130 mg/dL; ao deitar, de 90 a 150; hemoglobina glicada abaixo de 7%, ou de 6,5% quando há sensor. No sensor, o objetivo é ficar acima de 70% do tempo entre 70 e 180 mg/dL. Metas são individuais e ajustadas pela equipe.
O risco é maior do que na população geral (perto de 5%), mas a grande maioria dos irmãos não desenvolve. A dosagem de autoanticorpos identifica quem está em risco antes dos sintomas, e a SBD recomenda conversar com a equipe sobre esse rastreamento.
Deve. Atividade física melhora a sensibilidade à insulina e é parte do tratamento. O que muda é o planejamento: medir antes, ter carboidrato rápido à mão e ajustar insulina ou lanche conforme a orientação da equipe, porque o exercício pode causar hipoglicemia durante e até horas depois.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz da SBD, edição 2026. Capítulos “Peculiaridades do tratamento da criança com DM1” (https://diretriz.diabetes.org.br/peculiaridades-do-tratamento-da-crianca-com-dm1/), “Metas de controle glicêmico” (https://diretriz.diabetes.org.br/metas-de-controle-glicemico/), “Rastreamento de autoanticorpos no DM1”, “Manejo dos dias de doença no DM1” e “Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética” (https://diretriz.diabetes.org.br/diagnostico-e-tratamento-da-cetoacidose-diabetica/).
- Libman I, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Definition, epidemiology, and classification of diabetes in children and adolescents. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1160-1174.
- Besser REJ, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Stages of type 1 diabetes in children and adolescents. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1175-1187.
- Abraham MB, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Assessment and management of hypoglycemia in children and adolescents with diabetes. Pediatric Diabetes. 2022;23(8):1322-1340.
- de Bock M, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2024: Glycemic targets and glucose monitoring for children, adolescents, and young people with diabetes. Hormone Research in Paediatrics. 2024.
- American Diabetes Association. Children and Adolescents: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1).
- Battelino T, et al. Clinical targets for continuous glucose monitoring data interpretation: recommendations from the International Consensus on Time in Range. Diabetes Care. 2019;42(8):1593-1603.
- International Diabetes Federation. IDF Diabetes Atlas, dados de diabetes tipo 1 em crianças e adolescentes (0 a 19 anos). https://diabetesatlas.org/
- Ramos TTO, et al. Cetoacidose diabética em crianças e adolescentes com diabetes mellitus tipo 1 e fatores de risco associados. Cogitare Enfermagem. 2022;27. https://doi.org/10.5380/ce.v27i0.82388
- Prevalência de cetoacidose diabética na apresentação inicial de diabetes mellitus tipo 1 em crianças e adolescentes entre 2018 e 2021 em um serviço de referência. Arquivos Catarinenses de Medicina. https://revista.acm.org.br/arquivos/article/view/1432
- Anvisa. Resolução RE nº 897, de 9 de março de 2026 (registro do teplizumabe). Nota da SBD: https://diabetes.org.br/anvisa-libera-uso-de-medicamento-que-atrasa-aparecimento-de-dm1/
- Conitec. Consulta Pública nº 63/2026, sistema de monitorização contínua de glicose em tempo real para pessoas com DM1.
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diabetes na escola: materiais educativos. https://www.diabetes.org.br/profissionais/images/2018/diabetes-na-escola-materiais-educativos.pdf

Texto escrito por Christine Rolke, nutricionista (CRN 24102380), mestre em Imunologia, educadora em diabetes e mãe de criança com diabetes tipo 1. Conheça a minha história.
Revisado em 14/09/2026. Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação da equipe que acompanha a sua criança. Doses, metas e ajustes de insulina são sempre individuais.