A professora mede (ou olha o sensor), vê 62, e faz o quê?
Se a resposta na sua escola hoje é “liga pra mãe”, este texto é pra você. Ligar pra mãe é o segundo passo. O primeiro é tratar, e ele precisa acontecer em menos de um minuto, sem ninguém precisar decidir nada.
Eu sou nutricionista, educadora em diabetes e mãe da Livia, diagnosticada com diabetes tipo 1 aos 13 meses. O que eu vou escrever aqui é o protocolo que eu monto com as famílias que atendo e que peço pra escola colar na parede da sala: uma conduta por faixa de glicemia, em linguagem de escola, sem cálculo.
Antes de tudo, uma regra: os números são da sua criança, definidos pela equipe dela. Os que eu uso aqui são os que a ISPAD e a ADA usam como referência e que a maioria das equipes adota; onde tem colchete, a sua equipe preenche. O que não muda de criança pra criança é a estrutura: faixa, ação, tempo, quem avisa.
GlicemIA na Escola: a conduta da sua criança na mão de quem cuida dela. Eu criei um aplicativo em que você cadastra, uma vez, a conduta que a equipe prescreveu pra cada faixa de glicemia, e a escola vê essa conduta passo a passo no celular na hora em que mede, marca o que fez e você acompanha de onde estiver. Ele nunca calcula dose de insulina. A escola não paga nada e não precisa de curso.
Por que a escola precisa de um protocolo por faixa
Porque hipoglicemia não espera. Abaixo de 70 mg/dL o cérebro da criança já está com menos combustível do que precisa; abaixo de 54 ele está em risco; e uma hipo que não é tratada pode virar convulsão ou desmaio. O tratamento é simples e barato: carboidrato rápido, 15 minutos, medir de novo. O problema nunca foi a complexidade. O problema é a pessoa que está com a criança não saber o número, não saber o que dar, ou achar que precisa pedir permissão.
E porque a Lei 15.439/2026 garante à criança o direito de medir e de comer pra tratar hipoglicemia dentro da escola, na hora, e a Lei 13.722/2018 obriga a escola a capacitar a equipe em primeiros socorros. Um protocolo por faixa é a forma mais simples de a escola cumprir as duas.
Os níveis de hipoglicemia, em uma linha cada
A ISPAD e a ADA classificam assim, e é bom que a escola conheça os nomes:
- Nível 1: de 54 a 69 mg/dL. Alerta. Trata já, com carboidrato rápido.
- Nível 2: abaixo de 54 mg/dL. O cérebro já está em risco. Trata já, e alguém fica com a criança até subir.
- Nível 3: qualquer valor em que a criança não consegue se ajudar (não engole, confusa, convulsão, desmaio). Emergência: 192, nada pela boca.
O que a escola precisa guardar disso: abaixo de 70 trata; se não engole ou está confusa, liga 192.
A conduta por faixa
Esta é a tabela que vai na parede. Onde tem colchete, a equipe da criança preenche.
| Glicemia | O que a escola faz | Avisa a família? |
|---|---|---|
| Abaixo de [54] | Dar o carboidrato rápido da criança agora, em sala: [2 balas de glicose / 1 sachê de gel / meia caixinha de suco]. Um adulto fica com ela. Esperar 15 minutos. Medir de novo. Se ainda abaixo de [70], repetir. Quando passar de [70], lanche pequeno se faltar mais de 1 hora pra próxima refeição. Sem educação física no resto do período. Nunca mandar sozinha pra lugar nenhum. | Sim, depois de dar o carboidrato. |
| De [54] a [69] | Dar o carboidrato rápido da criança em sala. Esperar 15 minutos. Medir de novo. Se ainda abaixo de [70], repetir. Lanche pequeno se faltar mais de 1 hora pra próxima refeição. | Sim, depois de tratar. |
| De [70] a [180] | Nada. Aula normal. Se for horário de lanche ou de educação física, segue o plano. | Não. |
| De [180] a [250] | Água à vontade, banheiro liberado. Aula normal. [Se for horário de correção previsto no plano, a família informa a dose.] | Só se a criança estiver mal ou se o plano pedir. |
| Acima de [250] | Água à vontade, banheiro liberado. [Medir cetona, se a escola tiver fita e alguém que saiba.] Sem educação física até a família orientar. | Sim, na hora. |
| Acima de [250] com cetona, vômito, dor de barriga ou respiração rápida | Ligar pra família agora. Sem educação física. Água. Se vômito repetido, sonolência ou respiração rápida e profunda: 192. | Sim, na hora. |
| Criança que não engole, confusa, convulsão, desmaio (qualquer número) | Ligar 192. Nada pela boca. Deitar de lado. [Glucagon: onde está, quem aplica, dose ___.] | Sim, depois do 192. |
Quatro observações que eu faço em toda reunião:
“Carboidrato rápido da criança” tem quantidade. A regra clássica é 15 g, mas em criança a ISPAD orienta calcular pelo peso, cerca de 0,3 g de glicose por quilo: uma criança de 10 kg precisa de 3 g (uma bala de glicose), uma de 20 kg de 6 g, e a partir de 50 kg, 15 g. Dar 15 g pra uma criança pequena trata demais e a glicemia dispara uma hora depois. Por isso o plano diz “2 balas”, “1 sachê”, “meia caixinha”, em unidades que a escola enxerga, e não em gramas. Eu explico a conta inteira no guia de hipoglicemia em crianças.
A hipo é tratada em sala, na hora, sem pedir licença. Mandar a criança pra secretaria, pra cantina ou pro banheiro com suspeita de hipo é a situação mais perigosa que existe numa escola. Se ela precisa sair, um adulto vai junto.
Sensor tem atraso. O sensor mostra o valor com uns 10 a 15 minutos de atraso em relação ao sangue. Na hipo, a escola olha os sintomas, não só o número: se a criança está estranha e o sensor diz 80 com seta pra baixo, trata como hipo. E se o sensor falhou ou descolou, o glicosímetro continua no kit.
Ninguém precisa de permissão pra ligar pro 192. Isso vai por escrito. Escola que “espera a mãe autorizar” perde minutos que a criança não tem.

Como reconhecer a hipo, por idade
O número resolve quando alguém mede. Mas na maior parte das vezes é o comportamento que faz alguém medir, e o comportamento muda com a idade.
Bebê e criança de creche. Choro sem consolo, moleza, sono fora de hora, palidez, suor frio. “Está com sono” é a frase que mais atrasa um tratamento de hipo em creche. Se está com sono fora de hora, mede.
Educação infantil e fundamental 1. Ficar quieta demais (na Livia, era isso), birra do nada, palidez, suor, tremor, fome repentina, dizer que está com sono, dificuldade de fazer o que estava fazendo. Criança dessa idade às vezes avisa (“estou estranha”) e às vezes esconde, porque não quer sair da brincadeira.
Fundamental 2 e ensino médio. Tremor, suor, fome, dor de cabeça, dificuldade de concentrar, irritação, fala enrolada, olhar perdido. O adolescente tende a esconder e a “aguentar até o intervalo”. O protocolo diz que não aguenta: mede e trata na hora.
Pra qualquer idade: em caso de dúvida, mede. Medir não faz mal; não medir faz.
Depois da hipo
O que a escola faz depois de a glicemia voltar:
- Anota horário, valor, o que deu, valor depois de 15 minutos. Isso é informação de dose pra família.
- Avisa a família (mensagem ou ligação, como combinado).
- Não manda a criança pra educação física, prova ou passeio no resto do período sem a família orientar. Depois de uma hipo, a chance de outra nas horas seguintes é maior.
- Se a hipo foi em prova, registra, porque a criança em hipo não raciocina, e a família pode pedir compensação de tempo ou nova prova (adaptação razoável, Lei 15.439, art. 3º, IV).
Educação física e recreio
Exercício derruba glicemia durante e horas depois. As regras gerais, que o plano individualiza:
- Medir antes. Abaixo de [90 a 100]: comer o carboidrato do plano ([1 bala de glicose / meia banana]) antes de começar. Acima de [250] com cetona: não faz naquele dia.
- Kit ao lado da quadra. Não na sala, não na mochila trancada.
- Professor de educação física sabe o protocolo. Ele é, junto com a professora de sala, quem mais vê hipo.
- Sinais durante a aula: para, trata, espera. A criança não volta pro jogo “só pra terminar”.
- Avisar a família como foi, porque a hipo pode vir à noite, em casa.
O detalhe (quanto comer, seta do sensor, atividade longa) está no guia de hipoglicemia, seção de exercício.

O kit da escola
O protocolo não funciona sem o kit, e o kit não funciona se ninguém sabe onde está.
Na sala (ou com a pessoa de referência), num estojo com o nome da criança e a lista colada na tampa: glicosímetro, fitas e lancetas; balas de glicose (ou sachê de gel de glicose); açúcar em sachê; suco de caixinha; um lanche seco (biscoito, pão); fita de cetona, se a escola for medir; [insulina e caneta, se aplicar na escola]; [glucagon, com a dose escrita, se a família e a escola combinarem]; uma foto da criança colada no protocolo; os telefones (dois da família, equipe médica, 192).
A família confere validade uma vez por mês e repõe o que foi usado. A escola avisa quando usou.
O glucagon na escola
O glucagon é a injeção pra hipo grave, quando a criança não engole. A dose é 1 mg acima de 25 kg e 0,5 mg abaixo, e a aplicação é intramuscular, na coxa, por cima da roupa se precisar. Ele pode ficar na escola se a família e a escola combinarem e uma pessoa for treinada pra aplicar; se ninguém aceita, a conduta é 192, nada pela boca, criança deitada de lado. Nenhuma das duas escolhas é errada, desde que esteja escrita no protocolo antes de acontecer. Eu explico o glucagon inteiro, com a técnica, em glucagon no diabetes tipo 1.
O protocolo na mão de quem mede
Papel na parede funciona até a professora mudar, o estojo trocar de armário ou a criança ir pro passeio. O que eu vi acontecer, ano após ano, foi o protocolo certo na gaveta certa, e a pessoa errada na hora errada sem saber que ele existia.
Por isso eu criei o GlicemIA na Escola: a família cadastra, uma vez, a conduta que a equipe prescreveu pra cada faixa, exatamente como na tabela acima, com os números da sua criança. A escola abre o aplicativo no celular na hora de medir, digita o valor (ou o sensor manda), e a tela mostra o que fazer, passo a passo, com o cronômetro dos 15 minutos. A pessoa marca o que fez, e a família recebe na hora. O aplicativo nunca calcula dose de insulina: só mostra o que você cadastrou. A escola não paga nada, e o protocolo vai junto com a criança pra qualquer sala, passeio ou professora substituta.
Se você prefere papel, imprima a tabela desta página com os números da sua criança, assine com a equipe e cole na sala. O importante é existir, estar assinado e estar na escola.
Perguntas frequentes
Abaixo de 70 mg/dL (ou do valor definido pela equipe), dar o carboidrato rápido da criança na hora, em sala, na quantidade do plano (em geral 2 balas de glicose, 1 sachê de gel ou meia caixinha de suco), esperar 15 minutos, medir de novo e repetir se continuar abaixo de 70. Depois, lanche pequeno se faltar mais de 1 hora pra próxima refeição, e avisar a família. Nunca mandar a criança sozinha pra outro lugar.
Cerca de 0,3 g de glicose por quilo, até 15 g: uma criança de 10 kg precisa de 3 g (uma bala de glicose), uma de 20 kg de 6 g, uma de 50 kg de 15 g. O plano de cuidado traduz isso em unidades (“2 balas”, “meia caixinha”), pra escola não precisar calcular.
Quando a criança não consegue engolir, está confusa, tem convulsão ou desmaia (hipoglicemia grave), e quando a glicemia está alta com vômito repetido, sonolência ou respiração rápida e profunda (risco de cetoacidose). Liga 192 primeiro, família depois, sem precisar de autorização.
Não no resto do período. Depois de uma hipoglicemia, a chance de outra nas horas seguintes é maior. Antes da educação física, a escola mede: abaixo de 90 a 100 mg/dL (ou do valor do plano), a criança come um carboidrato antes de começar.
Serve, com duas ressalvas: o sensor mostra o valor com 10 a 15 minutos de atraso, então na hipoglicemia a escola olha os sintomas, não só o número, e trata se a criança está estranha mesmo com o sensor acima de 70; e o sensor pode falhar ou descolar, por isso o glicosímetro continua no kit.
Pode, se a família e a escola combinarem e uma pessoa for treinada. A dose é 1 mg acima de 25 kg e 0,5 mg abaixo, intramuscular na coxa. Se ninguém na escola aceita, a conduta escrita é: ligar 192, nada pela boca, criança deitada de lado.
Água à vontade, banheiro liberado, aula normal. Acima do valor definido pela equipe (em geral 250 mg/dL), avisar a família e não fazer educação física até ela orientar. Acima disso com cetona, vômito, dor de barriga ou respiração rápida: ligar pra família na hora e, se vômito repetido ou respiração rápida e profunda, 192. A escola nunca aplica insulina de correção “no olho”.
Glicosímetro com fitas e lancetas, balas de glicose ou gel, açúcar em sachê, suco de caixinha, um lanche seco, fita de cetona (se a escola for medir), insulina e caneta (se aplicar na escola), glucagon com a dose escrita (se combinado), foto da criança e telefones, com a lista e as validades coladas na tampa.
Leia também
- Hipoglicemia em crianças: sinais, o que fazer e como evitar
- Glucagon no diabetes tipo 1: quando usar, dose e como aplicar
- Diabetes tipo 1 na escola: direitos, plano de cuidado e carta modelo
- Aluno com diabetes tipo 1: o que professora e coordenação precisam saber
- Quem pode aplicar insulina na escola?
- GlicemIA na Escola: a conduta da sua criança na mão de quem cuida dela
Fontes
- Abraham MB, Karges B, Dovc K, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Assessment and management of hypoglycemia in children and adolescents with diabetes. Pediatr Diabetes. 2022;23(8):1322-1340.
- Bratina N, Forsander G, Annan F, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Management and support of children and adolescents with diabetes in school. Pediatr Diabetes. 2022;23(8):1341-1353.
- American Diabetes Association. Standards of Care in Diabetes 2026, Sections 6 and 14. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1).
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz 2026: hipoglicemia. https://diretriz.diabetes.org.br/
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diabetes na escola: materiais educativos.
- Brasil. Lei nº 15.439, de 26 de junho de 2026; Lei nº 13.722, de 4 de outubro de 2018.